As Melhores Escolhas | Estreia - Gravata x Videogame
Uma
série de:
HUGO
MARTINS
Direção
de:
MARCELO
DELPKIN
MIGUEL
RODRIGUES
Núcleo:
DNA
TV
Personagens
do capítulo
Ademir
Liana
Luccas
Monalisa
Mauro
Kelves
Ivete
Salmira
Henrique
EPISÓDIO: GRAVATA x VIDEOGAME
CASA DE LUCCAS – SALA –
FIM DE TARDE
Ademir,
44 anos, moreno, magro, cabelos negros, olhos cansados. Ele entra devagarzinho
escondendo um presente. O seu filho Luccas de apenas 04 anos, está brincando
com carrinhos no tapete da sala.
Luccas
corre para o pai e lhe abraça caloroso.
-
Meu cowboy! – diz Ademir abraçando o filho. – O pai trouxe um presente! – ele
entrega o embrulho para Luccas, que rasga o papel rapidamente.
-
Um videogame Nintendo? Ademir, você já viu a idade desse menino? Ele nem sabe
ligar isso – diz Dona Liana, se aproximando.
Dona
Liana, 29 anos, branca, loira e com sorriso preocupado. Ao se aproximar de
Ademir, ela sente um cheiro diferente.
-
De novo Ademir?! Quando que você vai parar com isso? Pelo amor de Deus! Quantas
vezes já te disse que isso vai te prejudicar?! Quem tem diabetes não pode
ingerir bebida alcoólica! – ela diz, repreendendo-o.
-
Eu posso fazer o que quiser mulher. Me deixa em paz – jogando o paletó no
encosto da cadeira, e desamarrando a gravata.
-
Você não está mais sozinho Ademir! Eu e seu filho precisamos de você sóbrio.
Quando fizer as suas bostas, lembre que você tem uma família. Além de se
embriagar você gasta o que não tem. O Luccas não precisa de um videogame. Ele
precisa de um pai. Então é melhor você escolher. O que você quer? Uma família,
ou brincar de ser irresponsável? – pergunta Liana.
-
Eu tenho que escolher?
-
Claro que sim. Você é um adulto não é? Faça as suas escolhas e se
responsabilize por elas!
Luccas
inocente observa seus pais discutirem.
14
ANOS DEPOIS
CASA DE LUCCAS – COZINHA –
TARDE
Dona
Liana está empolgada preparando uma lasanha. Luccas se aproxima faminto. Ele é moreno, alto e magro. Tem cara de nerd.
-
Meu Deus, que fome é essa?! A senhora vai me matar de fome! Quero comer! – brinca
Luccas.
-
Te aquieta menino. Em vez de ficar ai cozinhando o galo, deveria me ajudar a
cortar cebola – reclama Liana.
-
Nem morto! Minha vida já é muito triste pra chorar cortando cebola. Mãe tô com
fome. Acho que vou morder a batata da sua perna! – diz Luccas.
- Vai
pra lá Walking Dead!
A
campainha toca. Luccas vai atender. É Monalisa, a namorada dele.
-
Amor! Você trouxe sobremesa? – pergunta Luccas para a garota.
-
Não é da sua conta! Dá licença! – ela diz, entrando com uma travessa.
Monalisa
é morena, alta e tem cabelos bem cacheados. Ela entrega a travessa para Dona
Liana. As duas se abraçam e conversam algo baixinho. Logo após, Dona Liana
entra na sala e entrega uma cédula para Luccas.
- Vai comprar refrigerante. De preferência Coca-Cola
bem gelada. Agora! – ela ordena.
- Ok! A chefa mandou! – ele diz, saindo.
RUA – DIA
Luccas
retorna para sua casa carregando o refrigerante. Mas, ele percebe uma
movimentação na calçada da vizinha e decide ver o que esta acontecendo.
Meyre,
sua vizinha, está fazendo um bazar de coisas antigas. Ela e seu filho Jonathas
de apenas 13 anos, correm de um lado para o outro vendendo as quinquilharias.
Luccas
se aproxima de uma das mesas e observa os móveis, rádios antigos,
porta-retratos, roupas, malas entre outras coisas. Porém, um objeto específico
chama a atenção dele. É um videogame Nintendo antigo. Ele tem as inscrições com
as iniciais de Luccas. Ele se questiona o que o seu Nintendo está fazendo ali?
-
Jones, o que você tá fazendo com esse Nintendo? – Luccas pergunta para o
garoto.
-
Esse aí tá custando cinquenta reais. Ele ainda funciona. – Jonathas responde inocente.
-
Eu sei que ele funciona! Eu quero saber o que você tá fazendo com ele?
-
Uai? Vendendo! – diz Jonathas.
-
Esse Nintendo é meu, cara!
-
Não! Ele é meu. Sua mãe me deu!
-
Minha mãe te deu? – pergunta Luccas.
-
Sim. Ela apareceu aqui em casa e perguntou se eu queria. Eu aceitei!
-
É mesmo? Pois então fique sabendo que eu vou levar ele comigo. Porque ele é
meu! – diz Luccas, pegando o videogame.
-
Me dá isso agora! – Jonathas grita, agarrando a outra ponta do aparelho.
Nesse
instante, Monalisa e Dona Liana saem de casa, e percebem o conflito entre
Luccas e Jonathas.
-
Me dá meu Nintendo! – grita Luccas.
-
Ele é meu! Sua mãe me deu! Solta! – Jonathas eufórico.
Dona
Liana se aproxima dos dois, e tenta acabar com a briga.
-
Luccas, solta isso agora! – ordena Liana.
-
Luccas, por favor, solta o videogame do garoto. – pede Monalisa.
-
Isso é meu. Eu não dei a ninguém! – grita Luccas, disputando o objeto com o
garoto.
Dona
Liana se aproxima tentando acalmar os ânimos.
- Eu dei o videogame a ele – diz Dona
Liana.
Luccas
empurra o garoto, e arremessa o videogame no chão, quebrando-o.
-
O que você fez? – chora Jonathas, sem acreditar no que acabara de testemunhar.
- Nem meu nem seu! – diz Luccas, ousado.
Meyre,
a mãe de Jonathas, se aproxima preocupada. O garoto chora e mostra o aparelho
quebrado.
Dona
Liana pega Luccas pelo braço e ordena: - Pede desculpa!
-
Não mãe. Não vou pedir desculpa. Você não tinha o direito de dar uma coisa que
era minha. Você não tinha esse direito!
-
Pede desculpas agora. Depois falamos o direito que eu tinha ou não.
-
Eu não vou pedir desculpa! – devolve Luccas.
Dona
Liana agarra as orelhas de Luccas, que faz careta com a dor. Todos na rua
observam a cena. Monalisa morre de vergonha.
- Pede desculpas ou você vai apanhar aqui
mesmo!
- Eu não sou nenhuma criança. Não vou pedir
desculpa!
- Você tá agindo pior que uma criança. Pede
desculpa.
Luccas
se afasta da sua mãe. Ele olha pra Jonathas com raiva.
- Desculpa. – Luccas fala num sussurro. Em
seguida, corre para sua casa.
CASA DE LUCCAS – QUARTO –
DIA
Luccas
está pintando uma tela. Ele ainda está chateado. Dona Liana entra, trazendo um
prato com lasanha.
- Filho,
desculpa por dar seu videogame sem a sua permissão. Eu só achei que você não
quisesse mais ele. Você nem usava mais.
-
Minha raiva mãe, é que você me fez passar vergonha na frente de todo mundo. E,
eu sei por que você deu o videogame. Não tem nada haver comigo!
-
Desculpa Luccas, mas você pediu que eu agisse daquela forma. Olha o que você
fez? Quebrou o aparelho do menino!
-
Não era dele. Era meu! – diz Luccas.
-
E, sim. Eu entreguei por que você não usava.
-
Não, mãe. Você deu por que lembrou do pai. Foi por isso que você entregou meu
Nintendo. Foi só por isso. Acho que ver aquele videogame trouxe a memoria dos
dias que ele ainda estava com a gente.
-
Isso não...
-
Te lembrou que ele nos deixou sozinhos. E você teve que me aguentar. Preciso
dar uma volta. Mais tarde eu apareço.
Luccas
sai sem tocar na comida.
SHOPING DAS MANGUEIRAS –
LOJA DE ROUPAS – DIA
Luccas
passeia pelas roupas, olhando camisas masculinas. Um senhor na faixa dos 50
anos se aproxima. Ele é vendedor.
-
Posso ajudar? – pergunta o senhor.
-
Preciso de roupa social, tipo terno e gravata. – diz Luccas.
-
Você tá sozinho?
-
Sim! Eu deveria tá acompanhado?
-
Não, é que garotos da sua idade geralmente compram roupa com adultos. Sendo roupa
social, geralmente eles vêm com o pai.
-
Eu vou fazer 18 anos. Sou quase adulto.
-
Sem problemas. Vamos encontrar um terno bem bonito pra você.
Luccas
veste a camisa social, e logo após, põe o terno.
-
Esse é slin. Ele é mais jovial e segue o desenho do corpo. Ficou perfeito em
você. Qual sua cor preferida pra gravata? – pergunta o vendedor, que se chama
José.
José
enrola a gravata azul no pescoço de Luccas, e começa a dar o nó.
- Seu pai sabe dar o nó na gravata? –
pergunta José
- Sim. Ele sabe.
-
Então, se você preferir, posso deixar o nó feito. Você só vai precisar folga-lo,
e enrolar no pescoço – ele diz, ensinando a Luccas.
Luccas
se observa no espelho. Ele não se sente confortável.
-
Meu pai me ensinou a dar nós de gravata. Ele era um velho rabugento, mas, soube
me ensinar isso. Na época eu não entendia muitas coisas. Ele sempre dizia que
um homem que ousava usar gravata deveria no mínimo saber dar o nó. E, eu sempre
desprezava esses conselhos. Na minha cabeça eu dizia que nunca iria usar terno,
e muito menos gravata. Mas, o destino me pregou uma peça, e hoje eu tenho que
trabalhar de terno e gravata, todos os dias. Então, se ousa usar um terno, vai
precisar aprender a dar esse nó. Seu pai já tentou te ensinar? – pergunta José.
-
Meu pai não me ensina nada! – diz Luccas, retirando a gravata e o terno. –
Agradeço sua atenção, mas hoje não vou levar nada.
Luccas
sai da loja apressado. Seus olhos estão cheios de lágrimas. Seu coração de
revolta.
O SOL SE PÕE. PASSAROS
VOAM FELIZES. CRIANÇAS BRINCAM NA PRAÇA DAS MANGUEIRAS. A NOITE CAI E PASSA. E
O SOL VOLTA A NASCER. UM NOVO DIA ACORDA.
SHOPING – LOJA DE MATERIAL
ESCOLAR – DIA
Monalisa
procura por uma caixa de lápis de cor. Uma vendedora vem lhe auxiliar.
- Ela é da Faber Castell. Só serve se for
essa caixa – informa Monalisa para a vendedora.
-
Ahh amiga. Infelizmente estamos sem ela no estoque. Talvez próxima semana. Não
dá pra esperar? – pergunta a vendedora.
-
Meu namorado. Amanhã é o aniversário dele. E, ele é louco por desenho, pintura
essas coisas. Então, não. Não dá pra esperar. Queria presenteá-lo com isso.
- Qual a idade dele?
- Ele vai fazer 18.
-
Aqui nessa galeria tem loja que vende equipamentos pra carro. Garotos com 18
anos querem logo tirar a habilitação pra dirigir.
- É, mas ele não sabe dirigir. Quer dizer,
ele dirige bem mal.
- Bom, se ele gosta de desenhar, temos
alguns estojos pra desenho.
-
Não vai funcionar. Ele já tem milhares de estojos. Esse seria o único que ele
não tem – diz Monalisa.
-
Bem, nem sei como ajudar. Espero que encontre algo pro seu namorado. Eu queria
ter um namorado desenhista pra ele me desenhar. Ele já te desenhou alguma vez?
– pergunta a vendedora, sorridente.
-
Huum... acho que não. Não lembro agora. Estranho, realmente acho que ele nunca
me desenhou. Ele deveria me desenhar.
-
Fica tranquila. Gosto de pessoas que desenham. Elas geralmente têm uma sensibilidade que as outras
não têm. São como os músicos.
-
Verdade. Mas, acho que o Luccas é sensível até de mais. Tão sensível que ontem discutiu com um garotinho na
frente de todo mundo. Tem coisas nele que sinceramente eu reprovo – Monalisa
comenta.
-
Então, vou te contar um segredo. O meu namorado, que hoje é meu noivo. Ele era
o contrário do seu. Ele era super grosso comigo e com todo mundo. Aquele tipo
machão que é o dono do pedaço.
-
Realmente, o Luccas não é assim não. Ele até que é bem flexível – diz Monalisa.
-
Daí, eu comecei a ler um livro chamado “Romance Real” do autor Ray Douglas. É
um cara que conta como ele se decepcionou com várias garotas, e por fim,
decidiu se relacionar da maneira certa. Ele conta como conheceu a atual esposa
dele, e como eles fizeram tudo bonitinho até chegarem ao altar. É tão lindo.
Você precisa ler. Eu super indico. Resumindo a história, meu namorado e eu
lemos esse livro. Começamos a se ajeitar como casal, e hoje estamos noivos.
Vamos casar próximo mês. Minha dica é essa. Lê o livro, e pede pra teu namorado
ler também. Isso salvou meu relacionamento e nós mudamos da água pro vinho.
Descobrimos nosso propósito no relacionamento.
-
Que lindo amiga. Vou mudar o presente. Ele vai ganhar é um livro agora – diz Monalisa.
- Quanto tempo que vocês estão namorando?
- Nós estamos há três anos juntos. É um bom
tempo né?
-
Sim, sim. Eu já tô há dois anos com o meu. Ele é tão maravilhoso. Ele vem me
buscar no trabalho. Faz tanta surpresas pra mim. Resolve tudo lá em casa. É uma
maravilha.
-
Que bom amiga. Ainda bem que cê tá feliz – diz Monalisa, desconcertada.
- E você amiga? Você não tá feliz com o
seu?
-
O Luccas tem lá suas limitações, mas eu gosto dele, e sei que ele também gosta
de mim. Ele só precisa amadurecer mais. Eu acho.
-
Isso é um problema que os casais enfrentam. Mas, boa sorte pra você e
paciência. Ser professora da vida não é fácil não.
Monalisa
sai da loja, apreensiva.
CASA DE MAURO – QUARTO –
DIA
Luccas
bate na janela do quarto de Mauro.
- Pode pular! Tá aberta! – diz Mauro.
Luccas
pula a janela entrando no quarto.
Mauro
tem 18 anos, é moreno, alto, cabelos negros e olhar raivoso. Ele sempre tá mal
encarado.
-
Que é que cê quer? – pergunta Mauro, que está na cama, assistindo a um filme
pelo celular.
- Você tem terno?
- Eu detesto esse tipo de roupa. Pra que
você quer um?
-
Vai ter uma reunião com os engenheiros lá na Secretaria de Infraestrutura, onde
eu faço estágio. Minha coordenadora, a Salmira, pediu que nós fôssemos com roupa
social, se possível de terno.
-
Acho que o pai tem um. Posso ver isso pra você. Mas, se te arrumar um terno,
você dá o fora imediatamente do meu quarto.
- Você sempre tão gentil né?! – diz Luccas.
Luccas
veste o terno. Mauro se aproxima dele, e começa a dar o nó na gravata.
- Você sabe dar o nó? – pergunta Luccas,
assustado. “Todo mundo sabe dar a bosta desse nó!”, ele pensa.
- Claro. Meu pai me ensinou!
Mauro
observa Luccas no terno.
- Parece bom! Dá uma voltinha – brinca
Mauro.
-
Tá horrível! – diz Luccas, tirando o terno e desamarrando a gravata com
estupidez – Eu não vou mais usar isso. Os engenheiros que se danem.
- Mas, ficou bom em ti cara – aconselha
Mauro.
-
Eu detestei! – Luccas veste sua roupa, e sai do quarto em disparada. “Não vou
me humilhar pra usar a bosta de uma roupa idiota”, ele pensa.
- Maluco! – reclama Mauro.
PRAÇA DAS MANGUEIRAS –
CAIXA D’ÁGUA – FIM DE TARDE
Luccas
senta no topo da Caixa d’água que tem no meio da praça. Lá do alto, a 10 metros
de altura, ele observa o sol se por, e reflete na vida.
Uma
projeção mental do seu pai se materializa, e senta ao lado de Luccas. Ademir
está com camisa social e gravata. Ele segura uma garrafa de vinho.
- Chorando de novo? – pergunta Ademir.
- Não me enche!
-
Você é tão chorão, sabia? Tão mimadinho e sensível. Você deveria ser mais forte
não acha? Brigar com um moleque no meio da rua por causa de videogame. Qual a
sua idade? Sete anos? – pergunta Ademir.
- Se você tivesse aqui eu não seria assim!
– diz Luccas, inconformado.
-
Você sempre me culpa né? Sempre culpando os outros pelas suas bostas.
-
Mas é verdade. Por que você não estava comigo, eu deixei de ser várias coisas.
São 14 anos sentindo a sua falta. Eu preferia que você estivesse morto, do que
vivo, e me ignorando.
-
Tão dramático. Você sabe as minhas razões? – pergunta Ademir, tomando mais um
gole da bebida.
- Essa bosta que você tanto bebe! – Luccas
diz, apontando para o vinho.
-
Exato. E, quando você casar e tiver filhos, você vai ser igual a mim. Você ainda
não sentiu o peso da realidade. Vai saber quando chegar.
-
Será? Será que eu vou ser igual a você? Será que esse vício também vai me
acompanhar? – pergunta Luccas, observando os pássaros se aninharem na copa de
uma árvore.
-
Você não tem escolha. Com meu pai foi assim. Comigo foi assim. E com você não
vai ser diferente – diz Ademir.
-
Amanhã é meu aniversário de 18 anos, e onde você vai estar? – pergunta Luccas.
-
Distante. Vendo seu crescimento de longe. Na verdade, nem dá pra ver. Estou tão
distante que mesmo que eu quisesse, eu não poderia te dar os parabéns. Mas, o
que é um aniversário? Todo ano acontece né? Talvez nos próximos anos eu
apareça. Vai cultivando a minha ausência. Eu sempre estarei distante.
- E, quando eu cansar de chorar. O que é
que eu faço? – pergunta Luccas.
-
Escolha. Ser uma eterna criança mimada. Ou um homem de verdade. Faça a melhor
escolha! Esse é o meu conselho. Até mais – diz Ademir, se desfazendo com o
vento.
FRENTE DA CASA DE LUCCAS –
NOITE
Luccas
se aproxima de sua casa, e avista Mauro e Kelves sentados na calçada.
Kelves
tem 17 anos, é o gordinho fofinho da turma. Sempre carismático ele esbanja
alegria por onde passa.
Mauro
e Kelves ficam diante de Luccas, e começam a encenar o momento em que Dona
Liana puxou a orelha dele. Mauro agarra as orelhas de Kelves, enquanto este se
agacha fazendo careta.
-
Cabeça de nós todos. Pede desculpa pro moleque, cabeça de nós todos – diz Mauro,
imitando a voz da Dona Liana.
-
Não mainha, eu num vô pedir não. Ai mainha minhas ôreias tão duendo. Solte meus
oreião por favor! – diz Kelves, choramingando.
Luccas
se aproxima, achando graça. – Palhaçada! Nem foi assim! Vocês não tem o que
fazer não? – pergunta Luccas, rindo e reprovando os dois atores.
- Tá com as oreias doendo Luquitas? –
pergunta Kelves.
- Seu juízo não ta doendo não abestado? –
pergunta Luccas.
-
Aii que ele tá doloridinho, porque a mamãe deu uns relas nele – brinca Mauro,
fazendo voz melosa.
-
Vocês são uns bobões, isso sim! – diz Luccas – O que vocês querem na porta da
minha casa?
Mauro
abre a mochila na frente dele, mostrando várias latinhas de tinta.
- Vamo pichar?! – Mauro pergunta.
Os
três pegam as bikes, e saem pedalando pela cidade. Nas sacolas, latas de tinta.
No coração, a alegria da juventude. Eles são livres.
TERRENO BALDIO – NOITE
Os
três garotos picham no muro do terreno baldio. Kelves desenha um bolo gigante.
Mauro desenha uma cédula de cinquenta reais com asas. E, Luccas desenha um
homem vestido de terno e gravata.
Os
três se afastam, e observam as suas obras.
- Então, eu começo? – pergunta Kelves.
- Por mim tudo bem! – diz Luccas.
-
Meu bolo gigante, quer dizer que mais uma vez a comida me venceu. Eu quebrei
minha dieta pela décima vez. Me debrucei no bolo de chocolate que a mãe fez.
Continuo gordo e perdendo pra esse bolo gigante – diz Kelves, inconformado.
-
Você é um fracote. É só fechar a boca, maluco – Mauro diz, repreendendo Kelves.
-
Você não sabe o que é compulsão Mauro. Nós vamos vencer juntos Kéu, não se
preocupa – ameniza Luccas.
-
Agora é o meu desenho – diz Mauro, esticando a manga do blusão – Minha cédula
tá distante, voando de mim. E quando eu alcançá-la, a Larinha vai vir correndo
pros meus braços. Ela só quer saber da grana, e no fim vai se apaixonar por
mim. Vocês vão ver – Mauro diz confiante.
-
A Larinha gosta de gente cheirosa. Você tem sovaqueira, já disse. E fede igual
a macaco morto a bufete. Você não tem chance com ela, seu pai do mato – diz
Kelves, sorrindo.
- Cala a boca, bolo de bosta – Mauro
empurra o amigo.
- Chega
vocês dois. Agora é minha vez. – diz Luccas – O meu desenho diz tudo o que eu
poderia ser, se meu pai tivesse comigo. Como uma simples gravata pode reacender
a ausência dele.
-
Frescurinha com o pai! Ahh Luccas eu não aguento. Achei que cê já tivesse
superado isso! – Mauro murmura, revirando os olhos.
- Você não tá na pele dele pra saber! – Kelves
reclama com Mauro.
- E ele não tá na minha! Mas troca o disco
né?! – diz Mauro.
-
Valeu Kéu. E, Mauro, você fala isso por que seu pai sempre esteve por perto. –
diz Luccas.
- Luccas,
nós nos conhecemos e somos amigos desde os 5 anos de idade. O meu pai também é
seu pai. Assim como o Castor, pai do Kelves, também é seu pai – diz Mauro.
-
Eu sei que o Tonico e o Castor são gente fina, começando pelas pernas – brinca
Luccas – Mas é diferente, ter o seu próprio pai pra chamar de pai. Vocês nunca
vão entender.
- Supera. É só isso que eu digo! –
aconselha Mauro.
-
Vou ter que concordar com a carniça – diz Kelves, batendo no ombro de Mauro.
- Vai à merda bolonhesa de bosta! – Mauro
brinca, empurrando Kelves.
- Vambora pessoal! – chama Luccas, subindo
na bike.
Os
três voltam para casa, felizes e com a amizade fortalecida.
EM FRENTE A CASA DE LUCCAS
– NOITE
Luccas
pedala devagar. Se aproxima da varanda, e estaciona sua bike. Um HB20 está
estacionado do outro lado da rua. Ele não evita comparar sua bike com o carrão
ali perto. Luccas entra em casa.
CASA DE LUCCAS – SALA –
NOITE
Luccas
acende a luz da sala, e toma um susto. Todos estão lá, batendo parabéns ao
redor de um bolo. Sua mãe, Monalisa, Mauro, Kelves, Henrique e a esposa.
Henrique
é um antigo amigo dos garotos, ele tem 26 anos, moreno, atlético e jovial. Ele
veste camisa social azul, e gravata. E, ainda por cima, é engenheiro. Sua bela
esposa também é jovem e loira. “O HB20 deve ser dele”, pensa Luccas.
-
Caramba! Vocês me assustaram! Vocês me engambelaram né? – Luccas diz, pra
Kelves e Mauro.
-
Claro! A tia Liana tinha que fazer surpresa, e você não podia tá em casa! – diz
Kelves.
Mauro
se aproxima de Luccas, e dá uma ovada na cabeça dele. Luccas corre atrás de
todos, pra sujar o máximo possível. E, tudo acontece como em todos os
aniversários. Eles apagam as velas, fazem pedidos, cortam o bolo, e dão os
primeiros pedaços. Sorriem e se abraçam, desejando felicidades.
Luccas
olha para todos ali e se sente feliz. Ver o sorriso da sua mãe, os abraços dos
seus amigos, o carinho da sua namorada. Tudo é como um sonho. Por um momento ele
esquece que seu pai não está ali. Ele só pensa nas coisas boas que estão
acontecendo no agora.
- Agora é a hora de abrir os presentes! –
diz Dona Liana.
- Não mãe, isso é coisa de criança! –
reclama Luccas.
- A tradição não pode ser quebrada. E, faz
parte dos seus aniversários.
Luccas
rasga o primeiro presente. É um pôster emoldurado de Star Wars Episódio III: A
vingança dos Sith. Ele fica boquiaberto.
- Esse foi o Mauro que deu! Certeza! – diz
Luccas, abraçando o amigo.
-
Meu Deus eu quero um pra mim! Essas coisas você não me dá né carniça! – Kelves reclama
com Mauro.
- É
nesse episódio, que o bonzinho Anakin Skywalker se transforma na lenda Darth Vader!
Muito irado. – Mauro fala, olhando para Lucas. – Que a força esteja com você,
pequeno padawan!
-
Cruz credo. Negócio de padauãn. Que diabo é isso menino? – pergunta Dona Liana,
fazendo o sinal da cruz.
- Somos da ordem jedi, tia – diz Mauro pra
Liana.
Dona
Liana entrega mais um presente para ele. Luccas retira o embrulho, revelando um
livro que se chama “Romance Real”. Não é muito a praia dele, mas ele tenta
demonstrar que gostou.
-
Esse aqui foi da minha namorada – Luccas abraça Monalisa – Brigado amor – eles
se beijam.
-
Mas, péraê que ainda tem mais coisa – Monalisa fala, entregando outro presente
para ele. – Esse é o presente oficial.
Luccas
rasga o embrulho, revelando uma caixa de lápis de cor profissional. Ele fica em
êxtase. Abraça e beija Monalisa repetidas vezes.
De
repente, alguém toca a campainha. Luccas corre e atende. Ele se surpreende ao
ver a vizinha, Meyre, e o seu filho Jonathas. Eles carregam presentes também.
- Podemos entrar? – pergunta Meyre.
- Claro! – Luccas abrindo a porta.
-
Esse aí a gente nem tem como perguntar de quem é! Tudo bem com vocês Meyre? –
pergunta Dona Liana, abraçando a vizinha. Elas se confraternizam.
- Esse é o meu! – diz Meyre, entregando o presente
para Luccas.
Ele
abre o embrulho, revelando um conjunto de calça e camisa social. Além de uma
gravata vermelha.
-
Obr – obrigado – diz Luccas, paralisado e segurando o presente. Ele não
consegue disfarçar, e fita a gravata vermelha. Todas as memórias do dia parecem
acordar novamente. “A maldita gravata novamente”.
-
E, esse é o meu presente pra você Luccas – diz o garoto Jonathas, entregando o
pacote.
Luccas
tenta mostrar que está contente, mas algo mudou dentro dele. Ele rasga o papel
e se surpreende com o presente. É um videogame Nintendo, novinho em folha.
-
Eu também quero me desculpar por aquele dia. Eu não deveria ter brigado com
você! – diz Jonathas, meloso.
Luccas
o abraça e eles se reconciliam. Mas, ele olha pra diante de si, e vê os dois
presentes. Uma gravata que ele nem sabe dar o nó, e que nunca aprendeu. E, um
videogame, que ele sabe mexer muito bem. “Estou entre a gravata e o Nintendo”,
pensa Luccas.
Mais
uma vez, seu pai se materializa diante dele, e sorri.
-
E aí bebezão? Vai continuar com medo da gravata? Vai continuar com medo do que
não sabe fazer? Saiba que virão muitos e muitos desafios pela frente. O mundo é
assombroso e não perdoa amadores. Mas, não tem problemas, querido. Continua com
o videogame até que ele não te dê mais prazer. Tem isso aqui que ajuda – diz
Ademir, mostrando uma garrafa de vinho para Luccas – Isso te ajuda quando o
videogame não for suficiente. Então, o que você escolhe? Ficar com o videogame,
e continuar sendo essa criança fraca que você sempre foi e sempre será? Ou você
vai pegar a merda dessa gravata, aprender a dar a bosta desse nó, e ser um
homem de verdade? – pergunta Ademir, encarando Luccas.
Luccas
puxa Jonathas para si, e entrega o videogame a ele.
- Pode fica com você. Eu não quero!
- Não! Ele é seu. Por favor, fica com ele –
insiste Jonathas.
-
Jones, eu não vou jogar mais videogame. Então, pode ficar com ele. Sério, eu
agradeço pela sua consideração, mas se eu ficar com ele, não vai ter uso.
Então, pega esse videogame e aproveita. Vai pra escola, faz o dever de casa,
ajuda sua mãe, e nos momentos de folga você pode jogar. Mas, é que eu tô indo
pra outra vibe, outros rumos. Então, tô deixando isso pra você. Pega! – diz
Luccas, entregando o aparelho para Jonathas.
- Tá bom, então – diz o moleque, pegando o
Nintendo.
- Se você não quiser roupa, eu tô
aceitando! – Mauro fala sorrindo.
-
Com a roupa eu vou ficar! – diz Luccas, olhando para a gravata novamente. “Eu
não me chamo Luccas, se não aprender a dar o nó nessa merda”, ele reflete.
DEPOIS DE TUDO A NOITE
ADORMECE. A LUA BRILHA E AS ESTRELAS REFLETEM. O CÉU ESCURO DA LUGAR AO
HORIZONTE BRILHANTE. O SOL NASCE FORMOSO E ALEGRE.
CASA DE LUCCAS – COZINHA –
MANHÃ
Seis
horas da manhã em ponto. Encostada na bancada da cozinha, Dona Liana fuma um
cigarro, enquanto a chaleira fumaça com o café. Ela dá um pulo, quando Luccas
entra só de toalha.
- Mãe, cê tá fumando de novo? – Luccas
pergunta, pegando um sabonete no armário.
-
Que conversa é essa minino?! – diz Liana, jogando rapidamente a bituca de
cigarro dentro da pia.
- Tô de olho na senhora!
CASA DE LUCCAS – QUARTO –
MANHÃ
Luccas
veste a roupa que ganhou da vizinha Meyre. Mas, a calça e a camisa ficaram
muito apertadas. Ele então vai até o QUARTO
DA DONA LIANA e na cômoda, na última gaveta, retira uma calça e camisa
sociais, juntamente com uma gravata azul.
Após
vestir a roupa que era do seu pai, Luccas tenta dar o nó na gravata.
Dona
Liana aparece na porta e olha para ele. – Por que você tá fazendo isso Luccas?
– ela pergunta muito séria - Você não usa roupa social! Por que agora? Por que você
quer vestir as roupas dele?
-
São só roupas. Roupas que você mantém aqui guardadas! – ele diz apontando para
a gaveta. – E, você sempre fala pra eu usar roupas mais sociais, por que no
trabalho precisa e tal e tal...
- Chega Lucas! – Ela fala séria e com
raiva. – Sai do meu quarto!
Liana se aproxima da gaveta que ainda está aberta - Porcaria! – Ela diz irritada,
chutando a gaveta e fechando a mesma.
CASA DE LUCCAS –
BANHEIRO – MANHÃ
Usando o terno, Luccas observa seu reflexo no espelho.
Com o auxilio de um vídeo tutorial, tenta dar o nó na gravata.
- A partir de hoje eu serei um homem
de verdade. Eu já tenho 18 anos e sou adulto. Então, eu tenho que assumir uma
nova postura. Responsável, pontual, emocionalmente equilibrado, sério e
inteligente. Nada vai me impedir de ser um homem admirável, um filho admirável,
um profissional exemplar, um marido inspirador, e um pai herói. A partir de
hoje nada vai me deter, eu serei tudo aquilo que o meu pai não foi – diz Luccas
para si, tentando dar o nó na gravata.
Luccas percebe um fio solto na sua calça, e corta com
uma tesoura que está no balcão do banheiro.
Ele tenta mais uma vez, mas não consegue fazer o nó.
Desistindo, vai até o quarto da sua mãe, e a encontra dobrando as roupas do seu
pai e guardando-as em uma mochila.
- Me ajuda, por favor! – pede,
carinhoso.
Dona Liana, séria, caminha em direção a ele e pega a
gravata das suas mãos. Com o rosto fechado e uma expressão dura, ela enrola a
gravata e faz o nó.
Ela termina o nó, e volta a dobrar uma calça
masculina, tentando guarda-la na mochila, mas não consegue.
Lucas se aproxima e abre a mochila. Enquanto ela põe a
calça dentro.
- Eu só quero que você seja
diferente, meu filho. Diferente de tudo o que ele foi. É só isso que eu quero –
diz Liana, beijando carinhosamente o rosto do filho.
CASA DE LUCCAS – QUARTO
– MANHÃ
Luccas, com um martelo na mão, tenta fixar um prego na
parede. Depois de várias tentativas e uma martelada no dedão, ele consegue
deixar um prego torto.
Com muito cuidado, Luccas pendura o pôster de Star Wars
na parede. Ele fica contemplando a imagem. De um lado, a imagem do bonzinho
Anakin Skywalker. Do outro, o Anankin transformado no vilão Darth Vader. E, no
meio da imagem, contemplando o pôster, está Luccas. Entre um jovem bom e um
vilão icônico. Quem vencerá essa batalha pela alma de Luccas? O bem ou o mal?
Luccas sai do quarto, e ao fechar a porta, o pôster de
Star Wars despenca da parede. Um mau presságio?
BAIRRO DAS MANGUEIRAS –
MANHÃ
Luccas pedala pelas ruas, passando pela tia da tapioca,
o velhinho ginasta e algumas vizinhas que varrem as calçadas. O dia está apenas
começando, mas o sol está esplendoroso.
SECRETARIA DE
INSFRAESTRUTURA DO MUNICIPIO – MANHÃ
Luccas pega o elevador até o 3º andar, onde ele estagia.
O lugar é um escritório administrativo, comandado pela coordenadora Salmira.
Uma mulher na casa dos 45 anos, morena e atraente.
Luccas não percebe, mas um fio descostura da sua calça.
Esse fio acidentalmente se agarra a uma mesa, e sem perceber, um rasgão começa
a se abrir no fundo das calças dele.
Ivete é técnica na Secretaria, e também é assessora
imediata da coordenadora Salmira. Ela é uma jovem morena de 24 anos, tem um
sinal bem no meio da testa, e adora usar roupas de cor verde.
Ivete se aproxima de Luccas, e percebe o rasgão no
fundo das calças dele. Mas, ela escolhe não informar esse detalhe.
A área está repleta de engenheiros engravatados que se
confraternizam. Salmira se aproxima de Luccas e lhe dá os parabéns.
- Meus parabéns Luquinhas – diz
Salmira, abraçando Luccas.
De repente, uma servidora se aproxima com um bolo na
mão. Todos começam a cantar parabéns para Luccas.
- Pensava que eu tinha esquecido não
é?! – diz Salmira, lhe abraçando mais uma vez. – Pessoal, o Luquinhas está com
a gente há três meses, mas eu já tenho um carinho especial por ele.
Ivete observa Salmira abraçada com Luccas. Ela sente
uma pontada de inveja.
- E ontem, ele completou 18 aninhos,
e tá ficando um homem agora, né Luquinhas? – continua Salmira.
- Eu agradeço por tudo – diz Luccas,
para todos os servidores que fizeram uma roda para parabenizá-lo.
- Vamos tirar uma foto? – Ivete
propõe, chamando os servidores e engenheiros.
Todos se posicionam para a foto. Luccas é alto. Ivete
pede que ele se abaixe. Ao se agachar, a calça de Luccas se rasga por completo,
revelando sua bunda.
Luccas fica imóvel com o rasgão que a calça do seu pai
sofreu.
Todos, unanimemente, caem na gargalhada. Ninguém
consegue se segurar e ri na frente de Luccas. Ele olha pra todos aqueles
engenheiros de terno e gravata, metidos e arrogantes, e sente raiva e vergonha.
Luccas corre até o banheiro, envergonhado.
SEC. INFRAESTRUTURA –
BANHEIRO – MANHÃ
Com raiva, Luccas retira a gravata e abre os botões da
camisa.
- Droga! Droga! Que mico! – ele xinga.
Seu pai, mais uma vez, aparece, rindo dele.
- Mais que vergonha heim? Que
vergonha. Você até que tava parecendo um homenzinho, até a Salmira te chamar
pelo apelido carinhoso que ela te deu. Parabéns Luquinhas, você mostrou sua
bundinha – diz Ademir, caindo na gargalhada.
- Você é um grande imbecil, idiota,
merda – Luccas dá um murro na parede.
- Perceba o quanto você é incapaz
pra tudo. Incapaz de crescer. Você só faz bosta moleque. Tudo ao seu redor é
fazer besteira. Você é um desastre. Deveria ter percebido que aquela calça era
velha e estava descosturando. Mas, você é tão descuidado. Como chegou até aqui?
Sua mãe né? Sem ela, nem o nó da gravata você consegue dar. E, não vem com esse
papo que nós precisamos uns dos outros e devemos contar com outro para aquilo
que não se sabe. Você tem que fazer as coisas, sozinho. Se você não consegue
fazer nada sozinho, você é um imprestável! – Ademir grita para Luccas.
- Para com isso! – Luccas revida,
tentando tapar os ouvidos – Eu não sou assim! Eu consigo!
- Você consegue passar vergonha,
isso sim. Você consegue estragar tudo, isso sim. Você consegue ser um molenga
medroso, isso sim você consegue. Um bosta, burro e despreparado. Você vai morrer
isso sim! – diz Ademir se aproximando mais de Luccas - Eu te desafio! Tenta dar
o nó na bosta dessa gravata, e aí eu saio daqui e nunca mais apareço. Mas, se
você não conseguir, eu te convido a dar um gole nesse vinho. Se você conseguir
tirar a rolha é claro. – desafia Ademir, mostrando a garrafa para Luccas.
- Eu não vou cair na sua! – ele
responde.
- É só a bosta de um nó! Todos sabem
fazer esse nó. Eu sei fazer. O velho no shopping sabe fazer. Seu amigo, Mauro
sabe fazer. Sua mãe sabe fazer. E você? Você viu todos fazendo. Você assistiu
vídeos na internet. Será que você não aprende? SERÁ QUE VOCÊ NÃO APRENDE NADA?
– grita Ademir.
- Eu aprendo sim! – Luccas responde
com outro grito.
Ele desfaz o nó da gravata e tenta relembrar como fazer
o laço. Ele tenta de um jeito, não consegue. Tenta de outro, e não tem sucesso.
Faz um laço estranho, e erra novamente.
- MERDA! – grita Luccas, em
desespero.
- Você é engraçado Luquinhas! É um amorzinho
de pessoa. E, um incompetente. Agora, pelo menos, tenha o mínimo de dignidade,
e toma a p**** desse vinho.
SEC. INFRAESTRUTURA –
MANHÃ
Gabriel, namorado de Ivete, 20 anos, loiro, atlético,
olho claro.
Ivete se aproxima do namorado e pergunta: - Cê viu o
Luccas?
- Ele saiu da cozinha nestante. O
moleque parecia transtornado. E, o mais maluco. Ele saiu carregando uma garrafa
de vinho. Acho que ele não tá bem não viu. – diz Gabriel, para Ivete.
Ela fica preocupada com Luccas. “Que será que esse
moleque quer carregando um vinho?”, ela se pergunta.
- Ele só precisa crescer! – diz Ivete
– Coisas da idade.
AVENIDA – CICLOFAIXA -
MANHÃ
Luccas em sua bike, pedala perigosamente. Ele tira a
camisa social, e amarra na cintura. Enquanto pedala, Luccas toma goles
generosos do vinho que ele carrega.
- Que se exploda toda gravata, todo
nó e toda porcaria de ser adulto! – grita Luccas, no meio da rua – Que se
exploda tudo!
Ele vai até o muro onde pichou o homem com terno e
gravata. Ao lado do desenho, ele pinta uma gravata gigante, com uma boca gigante.
E além da boca gigante, a gravata tem asas.
- Sabe o que esse desenho significa?
Que a bosta desse nó, engoliu a minha vontade de ser um homem. Crescer é
difícil! E que a gravata ordinária, pode voar pra bem longe de mim. Eu não
quero mais pegar ela – Luccas diz para si, já um pouco embriagado.
Ademir aparece novamente.
- Pai... – Luccas senta no meio-fio,
e encosta a cabeça no colo do seu pai – Por quê? – pergunta Luccas, chorando.
É difícil olhar para ele, deitado no meio fio, chorando
pelo pai.
Anoitece...
Kelves e Mauro pedalam pela cidade à procura de Luccas.
Eles o encontram dormindo na calçada, e levam-no para casa de Mauro.
CASA DE MAURO – QUARTO
– NOITE
Os três garotos se olham desconfiados.
- Que merda cê tava fazendo caído
ali? – pergunta Mauro para Luccas.
- Eu tive um dia péssimo. Tomei uma
garrafa inteira de vinho e capotei – responde Luccas.
- Isso não é legal cara. Você
poderia ter morrido, batido a cabeça no meio-fio. Sair de bike bêbado! Isso foi
loucura! – repreende Kelves.
- Eu tô bem! Eu só preciso de uma
coisa! – Luccas levanta e fica em frente ao espelho.
- O que você quer? – pergunta Mauro.
- Vocês precisam me ajudar a fazer
esse nó! – diz Luccas, mostrando a gravata.
- Sério? – Mauro pergunta
sarcástico. “Ele deve ter batido a cabeça no meio-fio”, ele pensa.
- Eu preciso fazer isso. É uma
questão de honra – diz Luccas.
- Não tô entendendo a questão. Muito
menos a honra. Alguém pode me situar? – Kelves pergunta, olhando ao redor.
- Só precisa saber que é importante
pra mim. Eu tenho que aprender a fazer o nó da gravata – Luccas responde.
- Tá! Já que é tão importante assim,
vamo fazer – Mauro diz, pegando a gravata da mão de Luccas. Mas ele
imediatamente toma a gravata de Mauro.
- Não! Eu tenho que fazer isso com
minhas próprias mãos. Eu só preciso de instrução. Vocês podem me ajudar? –
pergunta Luccas.
Mauro e Kelves concordam, ainda sem entenderem nada. Os
dois amigos ficam ao lado de Luccas. Mauro pacientemente diz como fazer o nó,
enquanto Luccas executa.
Alguns minutos depois, Luccas fecha o nó e sorri para
si.
- Eu consegui! – ele diz, abraçando os
amigos. - Eu não conseguiria sem vocês. Obrigado!
- Situação estranha – diz Kelves, recebendo
o abraço de Luccas.
- Silêncio! Não quebra o clima – Luccas
fala, fechando os olhos e sorrindo.
Os três continuam abraçados.
CONTINUA...



2 Comentários
Parabéns pela estreia, Hugo! Você conseguiu transmitir muito bem a complexibilidade do Luccas, através das analogias com o vídeo game e a gravata, e com o "fantasma" do pai. A discussão com ele me fez imaginar uma situação mais dramática, mas que bom que tudo terminou bem! Ansioso pelo próximo episódio!
ResponderExcluirParabéns pela estreia meu amigo. Tinha lido partes deste episódio. Ele completo se torna mais complexo e a gente consegue sentir o drama de Luccas. Ele precisa amadurecer, mas isso não é uma tarefa fácil, ainda mais sem a presença do pai. Ainda bem que ele tem um ciclo de amigos interessantes. Ansioso pelo próximo episódio!
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