O QUE NOS UNE
novela de:
IGOR FONSECA
Direção de:
MARCELO DELPKIN
MIGUEL RODRIGUES
Núcleo:
DNA TV
Personagens do capítulo
Ravi
Ariel
Lara
Cassiano
Silvio
Eva
Elenco de apoio
Cicero
Amélia
CAPÍTULO 001
“UM LEÃO E SUA CRIA”
DNA TV – 2020
No Ar
O Que Nos Une
14 - Violência, Sexo e Linguagem
Capítulo 01
Um leão e sua Cria
Cena
001 - Mansão de Cassiano/Noite/Escritório
A
câmera adentra lentamente o quarto na penumbra, mal iluminado apenas por um
pequeno abajur amarelo e a luz que vem do notebook.
Cassiano,
um jovem de 25 anos com cabelos curtos e expressão séria, olha para algumas
fotos no monitor.
Cassiano:
É você... Não tem como eu me enganar. Eu te achei!
Na
tela, está a imagem de Ravi e sua filha Lara andando em uma rua.
Cassiano
permanece estático com o que vê.
Cena
002 - Casa de Ravi/Noite/Quarto
Ariel,
uma moça de 30 e poucos anos e cabelos loiros e longos, cobre sua filha Lara de
10 anos com o lençol.
Ariel:
Já passou da hora de mocinhas dormirem! Vamos, deixa eu arrumar o seu
travesseiro.
Lara:
A senhora sabe que dia é amanhã, não sabe?
Ariel:
Deixa eu pensar... Hum, acho que não...
Não tem nada demais amanhã!
Lara:
Mãe!
Ariel:
Seu aniversário, sua boba! Achou que eu fosse esquecer?
Lara:
Ultimamente a senhora só vive brigando com o pai!
Ariel:
Coisa de gente grande! Já disse que eu não quero você ouvindo isso!
Lara:
Eu sei, eu sei... Mas eu queria saber era outra coisa. - Diz a menina, um pouco
tímida.
Ariel:
- (beija a mão da filha) Pode falar!
Lara:
Esse ano eu vou ter uma festinha de aniversário? Sempre foi o meu sonho, não
precisa nem de presentes! Eu só queria ter um bolo enorme pra mim para todas as
minhas amigas verem!
Ariel
sente um aperto no peito.
Lara:
Todo ano eu vou no aniversário delas e fico sonhando quando vou ter uma festa
também...
A
menina interrompe sua fala ao notar a expressão de tristeza de sua mãe.
Lara:
Eu entendo, se puder fica pro ano que vem...
Ariel:
Minha filha, a mamãe vai fazer de tudo para te dar uma festa como sempre quis.
Você ainda terá a sua hora!
Fala,
a abraçando. Na porta do quarto, Ravi escuta a tudo.
Cena
003 - Casa de Ravi/Noite/Sala
Ariel:
Você não pode nem dar uma festa de aniversário para a sua filha! Olha a miséria
que a gente vive. Eu merecia muito mais do que morar em um buraco como esse, e
o que é pior, aluguel ainda mais. Nem próprio é!
Ravi:
Você sabe muito bem que eu faço o que eu posso!
Ariel:
É pouco. Faça mais! Pelo menos pela nossa filha!
Ravi:
Eu nunca deixei faltar nada para ela. Só não posso dar uma vida de luxo, você
sabe. E você ao invés de cobrar, poderia ajudar!
Ariel:
Ah, claro. Como não pensei nisso antes! Vou virar ajudante de pedreiro que nem
você! Ou quem sabe gari ? A sua profissão antiga ? Profissão!
Diz,
em tom de deboche.
Ravi:
Eu me mato de trabalhar todo dia para não deixar faltar nada aqui, se você não
está satisfeita ou não é a vida que você quer pode ir embora! Agora ela fica
comigo. Porque juiz nenhum daria a guarda a você, uma pessoa que sequer
trabalhou na vida. Uma mulher que não sabe nem cozinhar!
Ariel:
Cala a boca!
Ravi:
E ainda vou dar para a minha filha tudo o que eu não tive, nem que seja a
última coisa que eu faça, já tô cansado de tanta cobrança! Ela merece e vai ter
essa festa de aniversário!
Ariel:
Você não tá pensando em...
Ravi:
(corta) Não vou fazer nada errado.
Ariel
o olha desconfiada.
Cena
004 - Rua Escura/Noite
Com
um casaco de capuz, Ravi desce a rua e se encontra com alguns caras colegas
seu.
Um
deles, com o rosto coberto pela sombra de um muro, cumprimenta Ravi.
Cara:
Coé... Pensei que não ia descer. Faz dias que não dava notícia!
Diz,
tragando um cigarro de maconha.
Ravi:
Eu aceito. Mas com a condição de que não tenha que matar ninguém!
Cara:
Não quer lembrar os velhos tempos...
Fala,
dando risada e baforando a fumaça na cara dele.
Ravi:
Eu não vim aqui falar disso. Como é o esquema?
Cara:
Pensa que é assim? Tu sabe como funciona. É no sigilo senão o cara lá te apaga.
É coisa grande, nem nóis aqui sabe com quem tá mexendo!
Ravi:
Se for pra morrer eu morro tentando dar o melhor para a minha filha. Tu sabe
como os cara na cidade enxerga a gente, se não for assim é se acostumar com o
pior pra sempre! Eu só não quero matar ninguém.
Cara:
Relaxa... Vou passar as ideia aqui. Daqui a pouco ele vem te buscar!
Ravi:
Ele?
Cara:
O que vai te fazer rico. Nasceu com o cu virado pra lua, hein cachorro? Ele te
escolheu pra isso!
Uma
onda de nervoso passa por Ravi ao ouvir a fala dele.
Cena
005 - Casa de Ravi/Noite/Quarto
Ariel
acorda sonolenta e se vira para o lado, mas não vê seu marido.
Ela
percebe que já é de madrugada e teme por ele.
Ariel:
Ravi, Ravi... Se for o que eu tô pensando. Eu não te perdoo dessa vez!
Cena
006 - Quarto Desconhecido
Lara
anda e tenta falar, mas é como se a voz não saísse de sua garganta. Ela olha
assustada para sua volta e se vê em um quarto minúsculo sem portas e sem
janelas. Um medo perturbador invade todo o seu corpo enquanto ela tenta gritar
sem conseguir, batendo nas paredes. A menina cai no chão, chorando copiosamente
enquanto tudo ao seu redor vai ficando cada vez mais escuro.
Lara
acorda suada e assustada, e sente um grande alívio ao ver que era um pesadelo.
Ainda com medo, a menina abraça seu urso de pelúcia. Pelo estado de sono em que
se encontra, nem se dá conta de que pode ser um sonho premonitório como os que
costuma ter...
Cena
007 - Casa de Cicero/Noite
Eva,
uma mulher que aparenta ter quase 30 anos e de longos cabelos escuros, acorda
assustada com uma forte batida na porta e barulho de vidros se quebrando.
Apesar de estar acostumada com isso, mais uma vez se assusta. Era impossível de
não se assustar. Ela se levanta da cama
nervosa e tranca a porta do quarto, sentindo seu peito disparar. Seu marido
acaba de chegar bêbado mais uma vez.
Um
forte estrondo quase quebra a porta.
Cícero:
Abra. - Ordena, com uma voz em tom ameaçador que a deixa em pânico só de ouvir.
A mesma voz rouca que ele usa quando a espanca violentamente.
Eva
permanece em silêncio, olhando atentamente para a sua frente. Sua voz não sai e
seu corpo também não responde a seu cérebro. Resultado de um trauma de anos
semelhante a um enorme corte que nunca cicatriza e infecciona a cada dia que se
passa.
Cícero:
Se você não abrir e eu tiver que arrombar essa merda, eu te juro que dessa vez
vai ser a pior de todas!
Fala,
sem alterar a voz, mas em um tom demoníaco.
Eva:
Vai embora, pelo amor de Deus!
Responde,
sem conter o choro. Cícero esmurra a porta com tanta força que entorta a
estrutura de madeira. Eva dá um pulo para trás com o susto e uma forte carga de
adrenalina invade o seu corpo, como se fosse ondas de choque. Ela sente uma
forte e aguda dor em sua barriga.
Cícero:
SUA PUTA! EU VOU TE DAR O QUE VOCÊ MERECE!
Ele
começa a chutar sem parar a porta, completamente alterado pela bebida e de uma
forma anormal. A dor em Eva aumenta cada vez mais e ela sente como se mil
agulhas adentrassem profundamente em seu útero, e sangue escorre de suas
pernas. Ela chora e rasgando um pedaço do seu vestido, amarra em sua mão. Eva
quebra o espelho da parede.
Cícero
quebra a porta e a olha com ódio.
Eva:
Por favor, por tudo o que é mais sagrado, não faz isso comigo... - Implora,
desesperada.
Cícero
a pega pelo cabelo a bate a cabeça dela contra a cabeceira da cama.
Eva
cai sentada com a testa sangrando.
Cícero
anda ao redor dela.
Cícero:
Você é minha. Você faz tudo o que eu quiser que você faça, e me obedece quando
eu chamo!
Eva
chora.
Cícero:
Olha o que você me fez fazer ? A culpa é sua. Você pede pra apanhar!
Eva:
Monstro, eu tenho nojo de você!
Cícero:
Eu te dou casa e o que comer e você me trata assim ? Se não fosse por mim você
estaria no puteiro! Que é o seu lugar!
Eva:
Eu preferia estar lá.
Responde,
com o medo virando ódio. Ao ouvir isso, Cícero dá uma joelhada no rosto dela,
que cai pra trás.
Cícero:
Vagabunda!
Ele
sobe em cima dela, a beijando com força e apertando seus peitos.
Ela
olha para ele, com ódio e nojo, em um momento de impulso.
Cícero
para de se mexer.
Eva:
A partir de hoje, homem nenhum mais toca em mim se eu não quiser!
A
moça joga ele para o lado, com um caco de vidro do espelho enfiado em sua
barriga.
Cícero:
O que... O que você fez!
Ele
pressiona o ferimento, tentando tirar o vidro.
Chorando,
Eva cospe nele e pega o ferro elétrico. Um clima de alta tensão percorre o ar.
Cícero:
Chama uma ambulância sua rampeira! Eu tô sangrando!
Eva:
Isso aqui que tá escorrendo pelas minhas pernas era o meu filho. Que eu sempre
sonhei, e que agora não é mais nada além de sangue. E a culpa é sua!
Ela
segura o aparelho com força.
Cícero
a olha, sem reação.
Eva:
Eu preferia ter ficado na rua onde você me achou do que ficar anos nesse
inferno apanhando é sendo estuprada por você. Mas isso aqui foi o limite!
Ela
bate com toda a força presente em seu corpo com a quina do ferro na cabeça
dele, que cai pro lado.
Amélia,
uma senhora tia de Cicero que mora ao lado, assiste a tudo horrorizada pela
janela do lado de fora da casa.
Eva
joga o ferro no chão e se assusta ao olhar para frente e vê-la espiando na
janela.
As
duas se encaram em câmera lenta.
O
piso de cerâmica lisa onde Amélia está vai ficando cada vez mais molhado com a
garoa da noite.
Eva
corre pra falar com ela.
Amélia
se assusta e se vira pra sair correndo, mas Eva a alcança.
Amelia:
Eu vou contar tudo pra polícia, sua assassina!
Eva:
Você sabe como ele era, eu não vou ser presa!
Amelia:
Vai sim, teu lugar é na sarjeta, sua bandida!
Eva
dá um tapa na cara dela.
Amélia
se vira pra correr, mas escorrega e cai violentamente da escada que dá para a
calçada, batendo a cabeça no corrimão antes de chegar ao chão.
Eva
grita ao vê-la caindo, e fica incrédula.
Cena
008 - Galpão/Noite
Ravi
chega acompanhado de alguns caras. Enquanto segue adiante, olha o local a sua
volta. Mesmo iluminado, continua escuro e com um clima pesado.
Silvio,
um senhor bem vestido de aparente 60 anos, o recebe com um sorriso no rosto.
Sílvio:
Olá, esperávamos há dias o seu retorno. Ficamos felizes com a sua presença
aqui!
Ravi:
(direto) Me conhecem de onde?
Cassiano,
que estava sentado de costas para ele ao lado de Silvio, se vira.
Cassiano
e Ravi se vêem pela primeira vez. Um sentimento estranho e mórbido invade os
dois, era como se algo os unisse. Era para acontecer, eles não estavam ali de
propósito. E de alguma forma Cassiano sabia de onde vinha essa sensação, embora
não demonstrasse.
Suor
escorre lentamente pela testa de Ravi. O silêncio é tanto que é possível ouvir
a respiração de todos ali presente.
Ravi:
(ousa e quebra o silêncio, perguntando novamente) De onde me conhecem ? Quem
são vocês? Como me acharam?
Silvio:
Perdão, eu não me apresentei. Silvio, e este é meu sobrinho, Cassiano!
Ravi:
Eu acho que não preciso me apresentar.
Silvio:
Claro que não! O seu nome era bem falado no sub mundo noturno, se é que me
entende... Que você, digamos... Deixa eu procurar uma expressão melhor. Sabia
como eliminar as pedras em que aparecia no sapato de alguém!
Cassiano:
(se pronuncia pela primeira vez) Matador de aluguel.
Ravi:
Eu fiz coisas em que eu não me orgulho. Mas eu nunca matei ninguém, informaram
a vocês errado!
Silvio
e Cassiano se entreolham.
Ravi:
Era isso? Eu não estou entendendo o que está acontecendo aqui!
Silvio:
30 milhões de reais em dinheiro vivo! É claro que você não ficaria com isso
tudo... Teria que ser dividido entre todos. 5 milhões. O que acha?
Ravi
se espanta.
Silvio:
Eu sei que você tem uma filha pequena e que suas condições não são das melhores.
O nosso negócio é sério, não te chamaríamos sem te estudar antes. E te chamamos
justamente por ser um pai em situação difícil e que já foi desse mundo. O que facilita,
pois, um pai faria qualquer coisa por sua filha, ainda mais um pai matador de
aluguel!
Ravi:
Eu não sou matador de aluguel!
Silvio:
Mas essa semana será!
Cassiano:
Temos tudo em mente.
Silvio:
É o plano perfeito. Temos muitos homens e uma grande quantidade de armas, mas
você será o protagonista do circo. Você será o responsável pela diversão. Que
nos fará ainda mais ricos!
Ravi:
Vocês me parecem ser bem de vida... Porque se sujeitar a isso?
Cassiano:
Um dia você saberá na pele que quanto mais dinheiro se tem...
Silvio:
E não é só isso. A adrenalina. Somos acostumados com isso. Eu mesmo criei cada
detalhe!
Ravi:
Isso é doentio!
Silvio:
Não estamos aqui procurando um diagnóstico para nossos problemas. Pense bem. 5
milhões de reais. Terá 16 horas para pensar! Entraremos em contato. - Diz, em
tom meio irritado e de despedida.
Silvio,
Cassiano e seus capangas se viram para irem embora.
A
câmera se aproxima lentamente do rosto de Ravi, que fica sem reação.
Cassiano
olha para trás.
Os
dois se olham, sem nem imaginarem que a partir dali a vida e a morte de ambos
estaria sendo aos poucos seladas. Para sempre. Mas o que os une?
Imagem
de Ravi congela em um flash preto e branco.
"O
tempo destrói tudo."
-
Irréversible
Se
encerra na música de abertura Wicked Games - Iro
Violência contra a Mulher Secretaria
Nacional de Políticas para as Mulheres
Disque 180
Casos de violência contra a Mulher.
Atendimento 24 horas.
FIM
DO CAPÍTULO 1


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