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As Melhores Escolhas | Episódio 03 - Verdade x Mentira


As Melhores Escolhas | Episódio 03 - Verdade x Mentira



Uma série de:
HUGO MARTINS

Direção de:
MARCELO DELPKIN
MIGUEL RODRIGUES

Núcleo:
DNA TV

SECRETARIA DE INFRAESTRUTURA – MANHÃ
Luccas continua espremido na sua mesinha de plástico no canto do corredor. Ele não esconde sua frustração.
- Na minha sala, agora! – diz Salmira, marchando firme ao passar por Luccas.
Ele levanta estabanado, empurrando a mesa e tropeçando na cadeira. Entra na sala da Coordenadora e dá de cara com Gabriel ajustando uma mesa.
- Eu consegui essa mesa pra você – diz Salmira para Luccas.
Enquanto isso, Ivete empurra a sua mesa para debaixo do ar-condicionado.
- Quero você bem próximo de mim. Vou te ensinar somente tudo, se você topar é claro.
- Sim, claro que eu topo!
Salmira observa Ivete com cara de poucos amigos.
- E você Ivete? Tudo bem pra você o Luccas dividir a sala?
Ivete assua o nariz e diz: - Por mim, sem problemas, quer dizer, o único problema é ter que ficar embaixo do ar-condicionado.
- Você se adapta – diz Salmira – Agora, preciso conversar com você Luccas. Por que o atraso de hoje?
Luccas gagueja.
- Certo! É que minha mãe é asmática. Ela teve uma crise hoje e, eu tive que ir com ela pro IJF (Instituto Dr. José Frota). – ele diz com a voz de pesar. – Desculpe, eu não queria ter atrasado!
- Meu Deus! Mas, como ela tá? – pergunta Salmira, preocupada.
- Ela tá melhor, ela foi medicada e acredito que no final do dia ela já esteja em casa.
- Querido, você quer sair pra acompanhar sua mãe?
- Daqui a pouco dá 13hs, aí eu vou pra lá.
- Olha, eu só peço que quando alguma coisa do tipo acontecer, você me avise. Assim a gente não se preocupa, e se algo depender de você, a gente designa para outra pessoa fazer, entende? – diz Salmira.
- AHHH!!!
Ouve-se um grito agudo de dor no salão principal. Salmira levanta e corre para a porta. Luccas e Ivete a seguem, curiosos.

SEC. DE INFRAESTRUTURA – SALÃO PRINCIPAL – MANHÃ
Gabriel está sentado no chão segurando o dedão e gritando de dor. Vários servidores e engenheiros estão ao redor observando. Gabriel grita com muita dor. Ao seu lado, morto no chão, está um escorpião.
- Mas o que você fazia descalço? – pergunta Salmira.
- Ele tem que ser medicado. Eu já fui picado por escorpião, e se ele não tomar nada, vai ser pior. – diz um dos servidores.
Gabriel continua urrando e chorando de dor.
- Vão! Levantem ele! – ordena Salmira.
Luccas e outro servidor ajudam a levantar Gabriel e sentá-lo em uma cadeira.
- O melhor lugar pra levá-lo é no IJF! – diz o servidor.
Luccas fica pálido ao ouvir o nome IJF.
- Eu levo ele! – diz Ivete decidida.
Salmira dá a chave do seu carro para Ivete. – Vá rápido. E, quando chegar me liga! – diz Salmira.
Ivete pega a chave e vai para o elevador. Gabriel se apoia em dois servidores e anda pulando, seguindo-a.
Luccas preocupado.

CASA DE KELVES – QUARTO – MANHÃ
As paredes estão cobertas com pôster de filmes e desenhos animados. Um pôster está em destaque em cima da cama de Kelves, do filme Dirty Dancing: Ritmo Quente.
Kelves está somente de toalha dançando Single Ladies da Beyoncé. Seu quadril farto e sua bunda gorda tremem enquanto ele dança.
Uma batida forte na porta do lado de fora. – Mainha e painho estão chegando. Painho não vai gostar de ouvir Beyoncé nesta casa! – Avisa uma voz infantil de um garoto.
- Obrigado estraga prazeres! – grita Kelves.


CASA DE KELVES – COZINHA – MANHÃ
O ambiente é espaçoso. As paredes na cor salmão deixam o lugar aconchegante. Os pais de Kelves andam de uma lado para o outro.
organizando o armário. A mesa da cozinha está repleta de sacolas de supermercado.
Kelves entra e senta na cadeira, abrindo uma sacola. Seu pai (Castor) um homem gordo, de 48 anos, anda com dificuldades, se aproxima e puxa a sacola da mão de Kelves.
Adelaide, a mãe de Kelves, também é uma mulher acima do peso, cabelos loiros, usa brincos grandes e suas unhas estão sempre pintadas.
- Mozão, põe as bananas no cesto – Adelaide diz para Castor – E, Kelves onde está seu irmão? – ela pergunta.
- Lá no quarto dele.
Castor está pondo uma caixa no armário, enquanto que Adelaide arruma uma lata na geladeira.
Castor põe uma melancia enorme em cima da mesa, em frente ao Kelves.
- Eu vou voltar a dançar! – diz Kelves.
Castor corta a melancia ao meio encarando Kelves.
- Isso não faz o menor sentido, Kelves – avisa Castor, com a faca na mão.


SEC. DE INFRAESTRUTURA – SALA DA SALMIRA – INÍCIO DA TARDE.
Ivete entra. Salmira olha para ela preocupada. Lucas para o que estava fazendo e também a encara.
- E aí, como foi lá? – pergunta Salmira para Ivete.
- Ele foi medicado e, depois eu deixei ele em casa. O coitado não parava de gemer de dor. O médico receitou alguns analgésicos, a gente comprou com o cartão da empresa, e é só isso. – diz Ivete sentando em sua cadeira.
- Vamos ter que fazer um parecer sobre isso. Não deixa de ser um acidente de trabalho. – fala Salmira – Eu vou tratar disso agora. – ela diz levantando e saindo da sala.
Ivete retira uma pasta e folheia um processo. Luccas está digitando algo em seu computador.
- Luccas, aumenta a temperatura do ar-condicionado, por favor. Vamos esquentar as coisas por aqui! – ela fala, esfregando as mãos com frio.
Luccas levanta e pega o controle do ar. Ele aumenta a temperatura.
- Ficar aqui em baixo do ar-condicionado. Vai ser dureza pra mim, que sou friorenta. – ela diz olhando pra ele – Mas, eu prefiro o frio desta sala, do que o calor que faz naquele hospital.
- É! – ele fala voltando a sentar na cadeira e se escondendo da Ivete atrás do seu monitor.
- Em falar no hospital, eu consegui conversar com a sua mãe - despreocupada.
- Sério!? – Luccas dando uma de desentendido.
- Ela está muito bem por sinal. Chegou cedo pra trabalhar. Ela até contou que te acordou de manhã antes de sair pro trabalho. Deve ser duro trabalhar na recepção do IJF. Mas, eu admiro sua mãe, ela é uma mulher corajosa. – Ivete fala tentando olhar para Luccas, que está escondido atrás do monitor.
- Olha pra mim Luccas! – fala Ivete, séria.
Luccas a encara. – Que foi? – ele pergunta.
- Eu não gosto de mentiras! Logo, eu não gosto de mentirosos. Estou tentando fazer um trabalho, sério, me dedicando ao máximo, eu vejo a Salmira te dando oportunidades que eu nunca tive na vida, pelo contrário, pra mim tudo foi com muito suor e esforço. E, simplesmente você tem todas as chances e começa a por tudo por água abaixo. Sério, eu não gosto nem um pouco disso. – Ivete fala olhando diretamente para Luccas.
- Eu não sei...
- Para! Só para! Eu liguei pro RH pedindo o nome da sua mãe. Você disse mais cedo que ela teve uma crise asmática, e eu acreditei. Enquanto o Gabriel estava recebendo o soro, eu fui saber onde sua mãe estava, pra falar com ela, só que eu descubro que ela é recepcionista do centro cirúrgico do Hospital! Então, eu vou lá, e a encontro saudável e trabalhando com afinco. Coisa que você não faz! – Ivete fala aumentando o tom de voz.
- Eu... – Luccas fica em silêncio.
- Isso foi muito feio Luccas. Mentir dessa forma, não foi legal.
- Olha! Por favor, não conta pra Salmira. Eu juro que isso não vai acontecer novamente.
Ivete balança a cabeça e diz: Tudo bem Luccas, eu não vou contar nada pra ela. Mas, eu quero que você me faça um grande favor. Pode ser? – Ivete diz encarando-o.
- Sim, pode falar!
Ivete aponta para o ar-condicionado. – Olha, eu sei que a intenção da Salmira é a melhor das intenções. Mas, olha pra essa sala? Ela ficou apertada com essa mesa aqui – Ivete aponta para a mesa do Luccas. – Então, por favor, não me leve a mal. Mas, eu queria que você conversasse com a Salmira.
- Mas o que eu posso fazer? Foi ela que me trouxe pra cá. – Luccas explica.
- Eu sei. E, até admiro a atitude dela em querer investir em você. Mas, ela pode fazer isso com você em outra sala. Porque aqui ficou apertado pra todos nós. – ela diz, mostrando a sala pra ele – Eu estou embaixo do ar-condicionado, e isso não vai me fazer bem, então eu queria muito que você conversasse com ela.
- Mas, o que você quer que eu diga?
- Eu? Eu não quero que você diga nada. Eu só quero que você pense um pouco em mim, e no que eu estou passando, ok? – ela é enfática.
- Certo! Então eu vou pedir pra volta pra mesinha do corredor. Que mal me cabe! É isso que você quer? pergunta Luccas.
Nesse instante, Salmira entra na sala. Ivete volta a folhear o seu processo. Lucas fica pensativo.


FRENTE DA CASA DO LUCAS – VARANDA – FIM DA TARDE.
Mauro está sentado na cadeira de balanço. Lucas estaciona sua bike ao lado da casa e, sobe a varanda parando de frente para Mauro.
- Que cara é essa, brother? – pergunta Mauro.
Antes que Luccas pudesse esponder, Kelves chega cabisbaixo pedalando em sua bike. Ele, também estaciona ao lado da casa.
- É melhor entrar e conversar! – diz Lucas.
Lucas pega a chave da casa, enfia na fechadura, mas percebe que a porta está aberta. Ele entra ressabiado. Ouve o som de ferramentas na cozinha.


CASA DE LUCCAS – COZINHA – FINAL DA TARDE
Ao entrar na cozinha Lucas se depara com um homem em baixo da pia, consertando o encanamento.
- Oi! – fala Luccas.
O homem se levanta e encara Luccas.
- Oi, desculpa pelo transtorno. Sua mãe não avisou que eu vinha? – diz o homem.
Luccas reconhece o homem. Ele é alto, forte, tem seus 50 anos e é moreno.
- Seu Heleno, é o senhor! – fala Luccas.
Kelves e Mauro entram na cozinha.
- Eu mesmo! – fala Heleno. – Sua mãe pediu pra eu dar uma olhada no encanamento. Tava tudo entupido aqui! – ele diz, apontando para a pia – Ela me deu até a chave. – entregando a chave para o Luccas.
- Tudo certo! – Luccas diz segurando a chave no bolso.
- E, o Henrique, como está? – pergunta Kelves.
- Ahh, o Henrique teve que voltar urgente pra Recife! A firma precisava dele pra terminar uma obra. Ele queria muito ter falado mais com vocês, mas infelizmente não deu.
- Eu vi o senhor nas fotos do casamento dele, meus parabéns! – fala Luccas.
- Ahh, pois é, eu tive que viajar pra lá, pra participar do casamento. Eu não imaginava que fosse chorar tanto em um casamento. – diz Heleno.
- Mas, é claro! Era o seu filho que estava casando! – Kelves brinca.
- Eu vou terminar o serviço. – Heleno fala, voltando pra baixo da pia.


CASA DE LUCCAS – QUARTO – NOITE.
O quarto do Luccas está todo revirado. Um pôster de Star Wars está caído no chão. Um estojo está jogado em cima de uma mesa. Roupas caídas pelo chão. Vários papéis com desenhos espalhados pela cama. Um cavalete com uma tela em branco. E, vários potes com tinta em um canto do quarto.
Mauro senta em uma cadeira. Kelves vai pra escrivaninha e liga o notebook. Luccas se joga na cama.
- O que aconteceu Kelves? – pergunta Luccas.
- Eu disse aos meus pais que iria voltar a dançar, e eles quase me esquartejaram.
Luccas balança a cabeça em negação. – Nós já falamos sobre isso Kelves. Você precisa perder peso. As pessoas vão zombar de você. – aconselha Luccas.
- Eu acho que você tem que dançar mesmo viu Kelves. – fala Mauro pegando o álbum de figurinhas do Luccas.
- Sério, que você tá dizendo isso Mauro? – Kelves fala espantado.
- Sério! Eu acho que você deveria se expor o máximo possível, até todos rirem o máximo possível de você. E, quando não houver graça nenhuma em suas danças, aí talvez caia a sua ficha, de que você tem que procurar outra coisa pra fazer! Dançar nunca foi seu forte, e provavelmente nunca será. – Mauro fala de forma fria.
- Eu discordo Kelves, não liga pro Mauro. Acho que você tem todo um molejo diferente, sabe! – Luccas diz mexendo o corpo.
- Não mesmo! Me enrola que eu tô com frio! – brinca Mauro.
- Eu acho! – diz Luccas.
- Me engana que eu sou cigana! – Mauro fala.
- Vai cagar seu idiota! – Kelves xinga Mauro.
Kelves se aproxima dos desenhos de Luccas.
- E o que aconteceu com você Luquinhas? – pergunta Kelves.
- Já disse pra não me chamar assim. Já não basta, minha chefe e a assistente dela passarem o dia me chamando de Luquinhas, amozinho, bebezinho! – Luccas diz irritado.
- Então não me chamem de mão de onça! – fala Kelves.
- Eu cheguei atrasado. Tive que inventar a maior mentira pra minha chefa. E, depois a assistente dela descobriu. Agora, ela quer que eu saia da sala toda confortável e volte lá pro corredor. Pra ficar na mesa que mal me cabe. – diz Luccas.
Mauro continua revirando as revistas.
- Quem mandou mentir! – diz Mauro.
- Como se você nunca tivesse contado uma mentira no trabalho. – fala Luccas, olhando para Mauro.
- Pior que já! E, cada uma mais cabeluda do que a outra - Ahh! – Mauro levanta e vai até a sua mochila, retirando um álbum de Star Wars. Ele abre o álbum e mostra pra Luccas. – Você sabe o que significa isso?
- Vamo falar nisso depois! – pede Luccas.
- Nunca! Cadê a figurinha 57 que você prometeu ontem que iria me dar? Eu preciso urgentemente dela. Amanhã é o último dia pra pegar o boneco original do Han Solo. Mas, eu só posso pegar o prêmio com o álbum completo. E, adivinha qual figurinha falta? – pergunta Mauro.
- A 57! – responde Luccas.
- Vamo! Me dá logo minha preciosa figurinha, porque a saída no carro não foi de graça não. – fala Mauro.
Luccas baixa a cabeça.
- Que foi? – pergunta Mauro.
- Olha Mauro, eu não queria mentir pra você também! – Luccas fala, sério.
Mauro ergue as mãos sem entender
- Cara, me desculpa! – Luccas diz.
- Cadê minha figura, Luccas? – Mauro pergunta sério.
- Eu nunca tive essa figura. Me desculpe. Me perdoa mesmo cara. – Luccas fala, olhando pra ele.
- Você é um puta mentiroso. – Mauro pragueja indo pra cima de Luccas, pronto pra lhe dar um murro.
Kelves se aproxima e afasta os dois.
- Parem com isso! – Kelves apaziguando.
- Você é um puta mentiroso do inferno! – Mauro grita com raiva.
- Cara, eu precisava do carro. Me desculpe! – Luccas fala triste.
- Você sabia como eu queria essa figura pra completar meu álbum. Você sabia como isso era importante pra mim!
Mauro sai do quarto batendo forte a porta.
- Você vacilou feio Luccas! – Kelves fala saindo do quarto.
Luccas fica sozinho olhando para a TV.


CASA DO LUCCAS – COZINHA – NOITE
Lucas entra e encontra o Sr. Heleno terminando de limpar o cano da pia.
- Pronto! – diz o Sr. Heleno guardando uma chave de fenda em sua maleta.
- É difícil fazer isso? – pergunta Luccas.
- Não! É bem fácil na verdade. A questão aqui é que esse cano sempre vai receber resíduos. Mas, temos que reconher que as vezes precisaremos abri-lo e limpá-lo para que ele possa fluir a água novamente.
- Como assim reconhecer? – pergunta Luccas.
- É uma historinha que eu vejo muito. Eu pergunto se eles jogam resto de comida ou outras coisas dentro do ralo. E, eles sempre dizem que não. Mas, toda vez que eu abro, eu encontro vários resíduos, até bituca de cigarro eu já encontrei. – diz o Sr. Heleno – É uma questão de honestidade, sabe. Evita entupir a pia.
- Sei! – fala Luccas.
- Até mais, garoto! – o Sr. Heleno fala saindo da cozinha.

RUAS À NOITE. O SOL NASCE. PESSOAS ANDAM APRESSADAS INDO TRABALHAR. ÔNIBUS LOTADOS.


SEC. DE INFRAESTRUTURA – SALA DA SALMIRA – MANHÃ
Luccas entra e vai direto para a mesa da Salmira. Ela está sozinha na sala quando ele se aproxima.
- Bom dia, chefa! – diz Luccas.
- Chegou no horário, hoje! Parabéns!
- Eu quero pedir uma coisa – fala Luccas.
- Pode pedir meu amor!
- Eu gostaria de voltar pra minha mesa, lá no corredor. – meio amuado.
Ivete entra na sala e observa a conversa entre os dois.
- Mas, por qual motivo, razão ou circunstância? – pergunta Salmira.
Ivete senta em sua cadeira. – Bom dia! – diz Ivete.
Salmira e Luccas respondem, mas logo voltam à conversa. Ivete fica de orelha em pé.
- Eu agradeço tudo o que a senhora tem feito por mim! – Luccas fala.
- Não me chama de senhora Luquinhas – carinhosa.
- Desculpa. Mas, é que eu gosto do meu canto. E, queria muito voltar pra lá.
- Você quer sair daqui Luquinhas? – pergunta Ivete.
Luccas não responde e olha pra Salmira. – Pode ser?
- Não! Você não me convenceu! Conta logo a verdade! – Salmira ordena.
- Mas, é isso! Eu quero voltar pra minha mesa no corredor. – ele diz olhando para Ivete.
- E... – Salmira fala aguardando ele continuar.
Luccas baixa a cabeça. Ele fica apreensivo.
- Olha, me desculpa mesmo. Eu me envergonho disso. Foi um erro não ter falado antes. – ele diz, encarando o chão.
- Luquinhas, olha pra mim! – Salmira fala. – Pode falar! Eu não vou te julgar.
Ele está com os olhos cheios d’àgua.
- Eu menti pra você! Desculpa! Eu não sabia como falar aquilo. Eu não conseguia pensar em mais nada. Só uma mentira me vinha à mente. – ele fala, enquanto uma lágrima escorre dos seus olhos.
Ivete para o que está fazendo e observa Luccas de costas chorando e confessando.
- No dia do meu aniversário eu tive uma crise interna e acabei bebendo vinho. Minha mãe brigou comigo. Minha namorada está chateada porque eu não li o livro que ela me deu, e eu menti pro meu melhor amigo. Eu só queria chegar em casa e esquecer de tudo, então minha válvula de escape foi ficar jogando no celular até altas horas, o que me levou a perder a hora no dia seguinte – Luccas desabafa.
Salmira escuta atenta o relato dele.
- No dia que atrasei, eu acordei dez horas da manhã. E, minha mãe não é asmática. Ela tava trabalhando enquanto eu dormia. – Luccas confessa.
Salmira levanta e o abraça.
- Tudo bem! Só não precisa mentir mais! – ela diz de forma maternal.
- É por esse motivo que eu tenho que sair da sua sala. – ele fala, olhando dignamente para Salmira.
- É por este motivo que você vai ficar. E, você vai ficar mesmo sem querer. Pois quem manda aqui sou eu. – Ela diz, saindo da sala.
- Parabéns pela coragem – Ivete fala indiferente para Luccas. Ela volta a folhear um processo.
Salmira entra acompanhada de Gabriel.
- Você melhorou? – pergunta Luccas a Gabriel.
- Com certeza – ele responde.
- Eu resolvi a questão do ar-condicionado. Gabriel leva a mesa da Ivete lá pra aquela sala ao lado do almoxarifado. O ar de lá não gela tanto. No lugar da mesa dela, a gente põe a mesa do Luccas. – Salmira fala, apontando para as mesas.
- Não precisa Salmira – Lucca pede.
- Algum problema Ivete? – pergunta Salmira enérgica.
Ivete levanta da cadeira sem reação.
- Vamos fazer uma experiência. Ivete, você fica lá esse período e o Luccas fica aqui comigo. Se vocês não se adaptarem, nós vamos pensar em uma nova reorganização. – Salmira diz, mexendo os braços.
Gabriel começa a puxar a mesa da Ivete. Ela fica segurando vários processos e sua bolsa na mão.
- Luccas! – fala Salmira.
- Oi! – ele responde.
- Agora diminui a temperatura do ar-condicionado, por favor. – Salmira ordena.
Ivete cruza a sala em direção à porta.
- Tudo bem mesmo, Ivete? – pergunta Salmira.
Ivete vira com um sorriso, olhando para Salmira. – Tá tudo bem sim, chefa! – Ela SAI da sala.
Luccas fecha a porta e senta na sua nova cadeira acolchoada e confortável. Ele está muito contente.
Salmira e Luccas agora estão sozinhos na sala.


CENTRO DE FORTALEZA. VENDENDORES AMBULANTES VENDEM SUAS MERCADORIAS. REDES ESTENDIDAS, SUVENIRS, ENTRE OUTRAS COISAS.


SEBO NO CENTRO DE FORTALEZA – TARDE.
Luccas entra e se dirige ao balcão. Um jovem cabeludo vai atendê-lo. Luccas abre sua mochila e joga no balcão uma centena de álbuns e figurinhas velhas.
Luccas SAI do Sebo.


CASA DE MAURO – QUARTO – TARDE.
Luccas se aproxima da janela e bate três vezes. Ele aguarda. Mauro abre a janela e, quando percebe que é Luccas ele tenta fechar, mas Luccas o impede.
Mauro se afasta. Luccas pula a janela.
- Eu ainda não tô pronto pra fazer as pazes! – fala Mauro.
Luccas deita na cama dele.
- Eu realmente sinto muito pelo que eu fiz. – Luccas fala desenhando no ar.
- Eu imagino que você sabe que só piora, ficar pedindo desculpas. – Mauro diz, ainda com raiva.
- Sim! Eu sei! Foi por isso que eu não vim vazio. – fala Luccas – Você lembra a primeira vez que a gente assistiu Star Wars no cinema? – pergunta Luccas.
Mauro está procurando uma camisa na gaveta.
- Você todo empolgado pra ver Darth Vader, e o Henrique dizendo que ele não ia aparecer no filme, mas a gente queria muito ver o Darth. – Luccas diz sentando na cama. – E, o Kelves pulava de alegria, e eu pedia pra ele pelo amor de Deus parar de pular, que eu já tava com vergonha.
Mauro tira uma camisa preta da gaveta.
- A gente sabia que o Anakim iria para o lado negro da força, a questão era, como? Como transformar um grande herói jedi, em um grande vilão inescrupuloso? A forma como ele iria se transformar era o que nos instigava.
- Aonde você quer chegar com isso? – pergunta Mauro.
- Sabe por que a figurinha 57 é tão rara? – pergunta Luccas.
- Não! – Mauro responde vestindo uma camiseta preta.
- Por que ela é holográfica. Quando a gente meche nela aparece o Anakim, mas é só virar um pouco e ele se transforma em Darth Vader. – diz Luccas.
Mauro encara ele. – Como você sabe disso? – ele pergunta.
- Porque ela está bem aqui no meu bolso! – Luccas fala pondo a mão no bolso.
Mauro se aproxima e diz: - Cadê?
- Não é assim que funciona! Primeiro você tem que me responder uma coisa!  
- Anda logo Luccas! – Mauro diz impaciente.
- Você acredita que a figurinha está no meu bolso?
- Não!
- Mas, eu tô dizendo que ela tá no meu bolso! Você acredita no que eu tô dizendo? – Luccas insiste.
- Não!
- Você não pode ser assim cara! – fala Luccas.
- Eu posso e eu vou! Agora sai do meu quarto.
Luccas levanta e tira a figura do bolso. Ele deixa a figura em cima da cama e pula a janela, indo embora.
Mauro se aproxima e olha a figurinha. Ele corre até a janela e avista Luccas que está se afastando.
- Luquinhas! – Mauro grita.
Lucas se vira, olhando para Mauro.
- Obrigado! – Mauro diz.
Luccas sorri e vai embora.
Mauro segura a figura e fica observando a imagem de Darth Vader aparecer, pra depois desaparecer e surgir o Anakim.


CONTINUA...

Obs:. A série será exibida ás TERÇAS e QUINTAS às 20h.

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