As Melhores Escolhas | Episódio 03 - Verdade x Mentira
Uma série de:
HUGO MARTINS
Direção de:
MARCELO DELPKIN
MIGUEL RODRIGUES
Núcleo:
DNA TV
SECRETARIA DE INFRAESTRUTURA – MANHÃ
Luccas continua espremido na sua
mesinha de plástico no canto do corredor. Ele não esconde sua frustração.
- Na minha sala, agora! – diz Salmira,
marchando firme ao passar por Luccas.
Ele levanta estabanado, empurrando a
mesa e tropeçando na cadeira. Entra na sala da Coordenadora e dá de cara com
Gabriel ajustando uma mesa.
- Eu consegui essa mesa pra você – diz
Salmira para Luccas.
Enquanto isso, Ivete empurra a sua mesa
para debaixo do ar-condicionado.
- Quero você bem próximo de mim. Vou te
ensinar somente tudo, se você topar é claro.
- Sim, claro que eu topo!
Salmira observa Ivete com cara de
poucos amigos.
- E você Ivete? Tudo bem pra você o
Luccas dividir a sala?
Ivete assua o nariz e diz: - Por mim,
sem problemas, quer dizer, o único problema é ter que ficar embaixo do
ar-condicionado.
- Você se adapta – diz Salmira – Agora,
preciso conversar com você Luccas. Por que o atraso de hoje?
Luccas gagueja.
- Certo! É que minha mãe é asmática.
Ela teve uma crise hoje e, eu tive que ir com ela pro IJF (Instituto Dr. José
Frota). – ele diz com a voz de pesar. – Desculpe, eu não queria ter atrasado!
- Meu Deus! Mas, como ela tá? –
pergunta Salmira, preocupada.
- Ela tá melhor, ela foi medicada e
acredito que no final do dia ela já esteja em casa.
- Querido, você quer sair pra
acompanhar sua mãe?
- Daqui a pouco dá 13hs, aí eu vou pra
lá.
- Olha, eu só peço que quando alguma
coisa do tipo acontecer, você me avise. Assim a gente não se preocupa, e se
algo depender de você, a gente designa para outra pessoa fazer, entende? – diz
Salmira.
- AHHH!!!
Ouve-se um grito agudo de dor no salão
principal. Salmira levanta e corre para a porta. Luccas e Ivete a seguem,
curiosos.
SEC. DE INFRAESTRUTURA – SALÃO
PRINCIPAL – MANHÃ
Gabriel está sentado no chão segurando
o dedão e gritando de dor. Vários servidores e engenheiros estão ao redor
observando. Gabriel grita com muita dor. Ao seu lado, morto no chão, está um
escorpião.
- Mas o que você fazia descalço? –
pergunta Salmira.
- Ele tem que ser medicado. Eu já fui
picado por escorpião, e se ele não tomar nada, vai ser pior. – diz um dos
servidores.
Gabriel continua urrando e chorando de
dor.
- Vão! Levantem ele! – ordena Salmira.
Luccas e outro servidor ajudam a
levantar Gabriel e sentá-lo em uma cadeira.
- O melhor lugar pra levá-lo é no IJF!
– diz o servidor.
Luccas fica pálido ao ouvir o nome IJF.
- Eu levo ele! – diz Ivete decidida.
Salmira dá a chave do seu carro para
Ivete. – Vá rápido. E, quando chegar me liga! – diz Salmira.
Ivete pega a chave e vai para o
elevador. Gabriel se apoia em dois servidores e anda pulando, seguindo-a.
Luccas preocupado.
CASA DE KELVES – QUARTO – MANHÃ
As paredes estão cobertas com pôster de
filmes e desenhos animados. Um pôster está em destaque em cima da cama de
Kelves, do filme Dirty Dancing: Ritmo Quente.
Kelves está somente de toalha dançando
Single Ladies da Beyoncé. Seu quadril farto e sua bunda gorda tremem enquanto
ele dança.
Uma batida forte na porta do lado de
fora. – Mainha e painho estão chegando. Painho não vai gostar de ouvir Beyoncé
nesta casa! – Avisa uma voz infantil de um garoto.
- Obrigado estraga prazeres! – grita
Kelves.
CASA DE KELVES – COZINHA – MANHÃ
O ambiente é espaçoso. As paredes na
cor salmão deixam o lugar aconchegante. Os pais de Kelves andam de uma lado
para o outro.
organizando o armário. A mesa da
cozinha está repleta de sacolas de supermercado.
Kelves entra e senta na cadeira,
abrindo uma sacola. Seu pai (Castor) um homem gordo, de 48 anos, anda com
dificuldades, se aproxima e puxa a sacola da mão de Kelves.
Adelaide, a mãe de Kelves, também é uma
mulher acima do peso, cabelos loiros, usa brincos grandes e suas unhas estão
sempre pintadas.
- Mozão, põe as bananas no cesto –
Adelaide diz para Castor – E, Kelves onde está seu irmão? – ela pergunta.
- Lá no quarto dele.
Castor está pondo uma caixa no armário,
enquanto que Adelaide arruma uma lata na geladeira.
Castor põe uma melancia enorme em cima
da mesa, em frente ao Kelves.
- Eu vou voltar a dançar! – diz Kelves.
Castor corta a melancia ao meio
encarando Kelves.
- Isso não faz o menor sentido, Kelves
– avisa Castor, com a faca na mão.
SEC. DE INFRAESTRUTURA – SALA DA
SALMIRA – INÍCIO DA TARDE.
Ivete entra. Salmira olha para ela
preocupada. Lucas para o que estava fazendo e também a encara.
- E aí, como foi lá? – pergunta Salmira
para Ivete.
- Ele foi medicado e, depois eu deixei
ele em casa. O coitado não parava de gemer de dor. O médico receitou alguns
analgésicos, a gente comprou com o cartão da empresa, e é só isso. – diz Ivete
sentando em sua cadeira.
- Vamos ter que fazer um parecer sobre
isso. Não deixa de ser um acidente de trabalho. – fala Salmira – Eu vou tratar
disso agora. – ela diz levantando e saindo da sala.
Ivete retira uma pasta e folheia um
processo. Luccas está digitando algo em seu computador.
- Luccas, aumenta a temperatura do
ar-condicionado, por favor. Vamos esquentar as coisas por aqui! – ela fala,
esfregando as mãos com frio.
Luccas levanta e pega o controle do ar.
Ele aumenta a temperatura.
- Ficar aqui em baixo do
ar-condicionado. Vai ser dureza pra mim, que sou friorenta. – ela diz olhando
pra ele – Mas, eu prefiro o frio desta sala, do que o calor que faz naquele
hospital.
- É! – ele fala voltando a sentar na
cadeira e se escondendo da Ivete atrás do seu monitor.
- Em falar no hospital, eu consegui
conversar com a sua mãe - despreocupada.
- Sério!? – Luccas dando uma de
desentendido.
- Ela está muito bem por sinal. Chegou
cedo pra trabalhar. Ela até contou que te acordou de manhã antes de sair pro
trabalho. Deve ser duro trabalhar na recepção do IJF. Mas, eu admiro sua mãe,
ela é uma mulher corajosa. – Ivete fala tentando olhar para Luccas, que está
escondido atrás do monitor.
- Olha pra mim Luccas! – fala Ivete,
séria.
Luccas a encara. – Que foi? – ele
pergunta.
- Eu não gosto de mentiras! Logo, eu
não gosto de mentirosos. Estou tentando fazer um trabalho, sério, me dedicando
ao máximo, eu vejo a Salmira te dando oportunidades que eu nunca tive na vida,
pelo contrário, pra mim tudo foi com muito suor e esforço. E, simplesmente você
tem todas as chances e começa a por tudo por água abaixo. Sério, eu não gosto
nem um pouco disso. – Ivete fala olhando diretamente para Luccas.
- Eu não sei...
- Para! Só para! Eu liguei pro RH
pedindo o nome da sua mãe. Você disse mais cedo que ela teve uma crise
asmática, e eu acreditei. Enquanto o Gabriel estava recebendo o soro, eu fui
saber onde sua mãe estava, pra falar com ela, só que eu descubro que ela é
recepcionista do centro cirúrgico do Hospital! Então, eu vou lá, e a encontro
saudável e trabalhando com afinco. Coisa que você não faz! – Ivete fala
aumentando o tom de voz.
- Eu... – Luccas fica em silêncio.
- Isso foi muito feio Luccas. Mentir
dessa forma, não foi legal.
- Olha! Por favor, não conta pra
Salmira. Eu juro que isso não vai acontecer novamente.
Ivete balança a cabeça e diz: Tudo bem
Luccas, eu não vou contar nada pra ela. Mas, eu quero que você me faça um
grande favor. Pode ser? – Ivete diz encarando-o.
- Sim, pode falar!
Ivete aponta para o ar-condicionado. –
Olha, eu sei que a intenção da Salmira é a melhor das intenções. Mas, olha pra
essa sala? Ela ficou apertada com essa mesa aqui – Ivete aponta para a mesa do
Luccas. – Então, por favor, não me leve a mal. Mas, eu queria que você
conversasse com a Salmira.
- Mas o que eu posso fazer? Foi ela que
me trouxe pra cá. – Luccas explica.
- Eu sei. E, até admiro a atitude dela
em querer investir em você. Mas, ela pode fazer isso com você em outra sala.
Porque aqui ficou apertado pra todos nós. – ela diz, mostrando a sala pra ele –
Eu estou embaixo do ar-condicionado, e isso não vai me fazer bem, então eu
queria muito que você conversasse com ela.
- Mas, o que você quer que eu diga?
- Eu? Eu não quero que você diga nada.
Eu só quero que você pense um pouco em mim, e no que eu estou passando, ok? –
ela é enfática.
- Certo! Então eu vou pedir pra volta
pra mesinha do corredor. Que mal me cabe! É isso que você quer? pergunta
Luccas.
Nesse instante, Salmira entra na sala.
Ivete volta a folhear o seu processo. Lucas fica pensativo.
FRENTE DA CASA DO LUCAS – VARANDA – FIM
DA TARDE.
Mauro está sentado na cadeira de
balanço. Lucas estaciona sua bike ao lado da casa e, sobe a varanda parando de
frente para Mauro.
- Que cara é essa, brother? – pergunta
Mauro.
Antes que Luccas pudesse esponder,
Kelves chega cabisbaixo pedalando em sua bike. Ele, também estaciona ao lado da
casa.
- É melhor entrar e conversar! – diz
Lucas.
Lucas pega a chave da casa, enfia na fechadura,
mas percebe que a porta está aberta. Ele entra ressabiado. Ouve o som de
ferramentas na cozinha.
CASA DE LUCCAS – COZINHA – FINAL DA
TARDE
Ao entrar na cozinha Lucas se depara
com um homem em baixo da pia, consertando o encanamento.
- Oi! – fala Luccas.
O homem se levanta e encara Luccas.
- Oi, desculpa pelo transtorno. Sua mãe
não avisou que eu vinha? – diz o homem.
Luccas reconhece o homem. Ele é alto,
forte, tem seus 50 anos e é moreno.
- Seu Heleno, é o senhor! – fala
Luccas.
Kelves e Mauro entram na cozinha.
- Eu mesmo! – fala Heleno. – Sua mãe
pediu pra eu dar uma olhada no encanamento. Tava tudo entupido aqui! – ele diz,
apontando para a pia – Ela me deu até a chave. – entregando a chave para o
Luccas.
- Tudo certo! – Luccas diz segurando a
chave no bolso.
- E, o Henrique, como está? – pergunta
Kelves.
- Ahh, o Henrique teve que voltar
urgente pra Recife! A firma precisava dele pra terminar uma obra. Ele queria
muito ter falado mais com vocês, mas infelizmente não deu.
- Eu vi o senhor nas fotos do casamento
dele, meus parabéns! – fala Luccas.
- Ahh, pois é, eu tive que viajar pra
lá, pra participar do casamento. Eu não imaginava que fosse chorar tanto em um
casamento. – diz Heleno.
- Mas, é claro! Era o seu filho que
estava casando! – Kelves brinca.
- Eu vou terminar o serviço. – Heleno
fala, voltando pra baixo da pia.
CASA DE LUCCAS – QUARTO – NOITE.
O quarto do Luccas está todo revirado.
Um pôster de Star Wars está caído no chão. Um estojo está jogado em cima de uma
mesa. Roupas caídas pelo chão. Vários papéis com desenhos espalhados pela cama.
Um cavalete com uma tela em branco. E, vários potes com tinta em um canto do
quarto.
Mauro senta em uma cadeira. Kelves vai
pra escrivaninha e liga o notebook. Luccas se joga na cama.
- O que aconteceu Kelves? – pergunta
Luccas.
- Eu disse aos meus pais que iria
voltar a dançar, e eles quase me esquartejaram.
Luccas balança a cabeça em negação. –
Nós já falamos sobre isso Kelves. Você precisa perder peso. As pessoas vão
zombar de você. – aconselha Luccas.
- Eu acho que você tem que dançar mesmo
viu Kelves. – fala Mauro pegando o álbum de figurinhas do Luccas.
- Sério, que você tá dizendo isso
Mauro? – Kelves fala espantado.
- Sério! Eu acho que você deveria se
expor o máximo possível, até todos rirem o máximo possível de você. E, quando
não houver graça nenhuma em suas danças, aí talvez caia a sua ficha, de que você
tem que procurar outra coisa pra fazer! Dançar nunca foi seu forte, e
provavelmente nunca será. – Mauro fala de forma fria.
- Eu discordo Kelves, não liga pro
Mauro. Acho que você tem todo um molejo diferente, sabe! – Luccas diz mexendo o
corpo.
- Não mesmo! Me enrola que eu tô com
frio! – brinca Mauro.
- Eu acho! – diz Luccas.
- Me engana que eu sou cigana! – Mauro
fala.
- Vai cagar seu idiota! – Kelves xinga
Mauro.
Kelves se aproxima dos desenhos de
Luccas.
- E o que aconteceu com você Luquinhas?
– pergunta Kelves.
- Já disse pra não me chamar assim. Já
não basta, minha chefe e a assistente dela passarem o dia me chamando de
Luquinhas, amozinho, bebezinho! – Luccas diz irritado.
- Então não me chamem de mão de onça! –
fala Kelves.
- Eu cheguei atrasado. Tive que
inventar a maior mentira pra minha chefa. E, depois a assistente dela
descobriu. Agora, ela quer que eu saia da sala toda confortável e volte lá pro
corredor. Pra ficar na mesa que mal me cabe. – diz Luccas.
Mauro continua revirando as revistas.
- Quem mandou mentir! – diz Mauro.
- Como se você nunca tivesse contado
uma mentira no trabalho. – fala Luccas, olhando para Mauro.
- Pior que já! E, cada uma mais
cabeluda do que a outra - Ahh! – Mauro levanta e vai até a sua mochila,
retirando um álbum de Star Wars. Ele abre o álbum e mostra pra Luccas. – Você
sabe o que significa isso?
- Vamo falar nisso depois! – pede
Luccas.
- Nunca! Cadê a figurinha 57 que você
prometeu ontem que iria me dar? Eu preciso urgentemente dela. Amanhã é o último
dia pra pegar o boneco original do Han Solo. Mas, eu só posso pegar o prêmio
com o álbum completo. E, adivinha qual figurinha falta? – pergunta Mauro.
- A 57! – responde Luccas.
- Vamo! Me dá logo minha preciosa
figurinha, porque a saída no carro não foi de graça não. – fala Mauro.
Luccas baixa a cabeça.
- Que foi? – pergunta Mauro.
- Olha Mauro, eu não queria mentir pra
você também! – Luccas fala, sério.
Mauro ergue as mãos sem entender
- Cara, me desculpa! – Luccas diz.
- Cadê minha figura, Luccas? – Mauro
pergunta sério.
- Eu nunca tive essa figura. Me
desculpe. Me perdoa mesmo cara. – Luccas fala, olhando pra ele.
- Você é um puta mentiroso. – Mauro
pragueja indo pra cima de Luccas, pronto pra lhe dar um murro.
Kelves se aproxima e afasta os dois.
- Parem com isso! – Kelves apaziguando.
- Você é um puta mentiroso do inferno!
– Mauro grita com raiva.
- Cara, eu precisava do carro. Me
desculpe! – Luccas fala triste.
- Você sabia como eu queria essa figura
pra completar meu álbum. Você sabia como isso era importante pra mim!
Mauro sai do quarto batendo forte a
porta.
- Você vacilou feio Luccas! – Kelves
fala saindo do quarto.
Luccas fica sozinho olhando para a TV.
CASA DO LUCCAS – COZINHA – NOITE
Lucas entra e encontra o Sr. Heleno
terminando de limpar o cano da pia.
- Pronto! – diz o Sr. Heleno guardando
uma chave de fenda em sua maleta.
- É difícil fazer isso? – pergunta
Luccas.
- Não! É bem fácil na verdade. A
questão aqui é que esse cano sempre vai receber resíduos. Mas, temos que
reconher que as vezes precisaremos abri-lo e limpá-lo para que ele possa fluir
a água novamente.
- Como assim reconhecer? – pergunta
Luccas.
- É uma historinha que eu vejo muito.
Eu pergunto se eles jogam resto de comida ou outras coisas dentro do ralo. E,
eles sempre dizem que não. Mas, toda vez que eu abro, eu encontro vários
resíduos, até bituca de cigarro eu já encontrei. – diz o Sr. Heleno – É uma
questão de honestidade, sabe. Evita entupir a pia.
- Sei! – fala Luccas.
- Até mais, garoto! – o Sr. Heleno fala
saindo da cozinha.
RUAS À NOITE. O SOL NASCE. PESSOAS
ANDAM APRESSADAS INDO TRABALHAR. ÔNIBUS LOTADOS.
SEC. DE INFRAESTRUTURA – SALA DA
SALMIRA – MANHÃ
Luccas entra e vai direto para a mesa
da Salmira. Ela está sozinha na sala quando ele se aproxima.
- Bom dia, chefa! – diz Luccas.
- Chegou no horário, hoje! Parabéns!
- Eu quero pedir uma coisa – fala
Luccas.
- Pode pedir meu amor!
- Eu gostaria de voltar pra minha mesa,
lá no corredor. – meio amuado.
Ivete entra na sala e observa a
conversa entre os dois.
- Mas, por qual motivo, razão ou
circunstância? – pergunta Salmira.
Ivete senta em sua cadeira. – Bom dia!
– diz Ivete.
Salmira e Luccas respondem, mas logo
voltam à conversa. Ivete fica de orelha em pé.
- Eu agradeço tudo o que a senhora tem
feito por mim! – Luccas fala.
- Não me chama de senhora Luquinhas –
carinhosa.
- Desculpa. Mas, é que eu gosto do meu
canto. E, queria muito voltar pra lá.
- Você quer sair daqui Luquinhas? –
pergunta Ivete.
Luccas não responde e olha pra Salmira.
– Pode ser?
- Não! Você não me convenceu! Conta
logo a verdade! – Salmira ordena.
- Mas, é isso! Eu quero voltar pra
minha mesa no corredor. – ele diz olhando para Ivete.
- E... – Salmira fala aguardando ele
continuar.
Luccas baixa a cabeça. Ele fica
apreensivo.
- Olha, me desculpa mesmo. Eu me
envergonho disso. Foi um erro não ter falado antes. – ele diz, encarando o
chão.
- Luquinhas, olha pra mim! – Salmira
fala. – Pode falar! Eu não vou te julgar.
Ele está com os olhos cheios d’àgua.
- Eu menti pra você! Desculpa! Eu não
sabia como falar aquilo. Eu não conseguia pensar em mais nada. Só uma mentira
me vinha à mente. – ele fala, enquanto uma lágrima escorre dos seus olhos.
Ivete para o que está fazendo e observa
Luccas de costas chorando e confessando.
- No dia do meu aniversário eu tive uma
crise interna e acabei bebendo vinho. Minha mãe brigou comigo. Minha namorada
está chateada porque eu não li o livro que ela me deu, e eu menti pro meu
melhor amigo. Eu só queria chegar em casa e esquecer de tudo, então minha
válvula de escape foi ficar jogando no celular até altas horas, o que me levou
a perder a hora no dia seguinte – Luccas desabafa.
Salmira escuta atenta o relato dele.
- No dia que atrasei, eu acordei dez
horas da manhã. E, minha mãe não é asmática. Ela tava trabalhando enquanto eu
dormia. – Luccas confessa.
Salmira levanta e o abraça.
- Tudo bem! Só não precisa mentir mais!
– ela diz de forma maternal.
- É por esse motivo que eu tenho que
sair da sua sala. – ele fala, olhando dignamente para Salmira.
- É por este motivo que você vai ficar.
E, você vai ficar mesmo sem querer. Pois quem manda aqui sou eu. – Ela diz,
saindo da sala.
- Parabéns pela coragem – Ivete fala
indiferente para Luccas. Ela volta a folhear um processo.
Salmira entra acompanhada de Gabriel.
- Você melhorou? – pergunta Luccas a
Gabriel.
- Com certeza – ele responde.
- Eu resolvi a questão do
ar-condicionado. Gabriel leva a mesa da Ivete lá pra aquela sala ao lado do
almoxarifado. O ar de lá não gela tanto. No lugar da mesa dela, a gente põe a
mesa do Luccas. – Salmira fala, apontando para as mesas.
- Não precisa Salmira – Lucca pede.
- Algum problema Ivete? – pergunta
Salmira enérgica.
Ivete levanta da cadeira sem reação.
- Vamos fazer uma experiência. Ivete,
você fica lá esse período e o Luccas fica aqui comigo. Se vocês não se
adaptarem, nós vamos pensar em uma nova reorganização. – Salmira diz, mexendo
os braços.
Gabriel começa a puxar a mesa da Ivete.
Ela fica segurando vários processos e sua bolsa na mão.
- Luccas! – fala Salmira.
- Oi! – ele responde.
- Agora diminui a temperatura do
ar-condicionado, por favor. – Salmira ordena.
Ivete cruza a sala em direção à porta.
- Tudo bem mesmo, Ivete? – pergunta
Salmira.
Ivete vira com um sorriso, olhando para
Salmira. – Tá tudo bem sim, chefa! – Ela SAI da sala.
Luccas fecha a porta e senta na sua
nova cadeira acolchoada e confortável. Ele está muito contente.
Salmira e Luccas agora estão sozinhos
na sala.
CENTRO DE FORTALEZA. VENDENDORES
AMBULANTES VENDEM SUAS MERCADORIAS. REDES ESTENDIDAS, SUVENIRS, ENTRE OUTRAS
COISAS.
SEBO NO CENTRO DE FORTALEZA – TARDE.
Luccas entra e se dirige ao balcão. Um
jovem cabeludo vai atendê-lo. Luccas abre sua mochila e joga no balcão uma
centena de álbuns e figurinhas velhas.
Luccas SAI do Sebo.
CASA DE MAURO – QUARTO – TARDE.
Luccas se aproxima da janela e bate
três vezes. Ele aguarda. Mauro abre a janela e, quando percebe que é Luccas ele
tenta fechar, mas Luccas o impede.
Mauro se afasta. Luccas pula a janela.
- Eu ainda não tô pronto pra fazer as
pazes! – fala Mauro.
Luccas deita na cama dele.
- Eu realmente sinto muito pelo que eu
fiz. – Luccas fala desenhando no ar.
- Eu imagino que você sabe que só
piora, ficar pedindo desculpas. – Mauro diz, ainda com raiva.
- Sim! Eu sei! Foi por isso que eu não
vim vazio. – fala Luccas – Você lembra a primeira vez que a gente assistiu Star
Wars no cinema? – pergunta Luccas.
Mauro está procurando uma camisa na
gaveta.
- Você todo empolgado pra ver Darth
Vader, e o Henrique dizendo que ele não ia aparecer no filme, mas a gente
queria muito ver o Darth. – Luccas diz sentando na cama. – E, o Kelves pulava
de alegria, e eu pedia pra ele pelo amor de Deus parar de pular, que eu já tava
com vergonha.
Mauro tira uma camisa preta da gaveta.
- A gente sabia que o Anakim iria para
o lado negro da força, a questão era, como? Como transformar um grande herói
jedi, em um grande vilão inescrupuloso? A forma como ele iria se transformar
era o que nos instigava.
- Aonde você quer chegar com isso? –
pergunta Mauro.
- Sabe por que a figurinha 57 é tão
rara? – pergunta Luccas.
- Não! – Mauro responde vestindo uma
camiseta preta.
- Por que ela é holográfica. Quando a
gente meche nela aparece o Anakim, mas é só virar um pouco e ele se transforma
em Darth Vader. – diz Luccas.
Mauro encara ele. – Como você sabe
disso? – ele pergunta.
- Porque ela está bem aqui no meu
bolso! – Luccas fala pondo a mão no bolso.
Mauro se aproxima e diz: - Cadê?
- Não é assim que funciona! Primeiro
você tem que me responder uma coisa!
- Anda logo Luccas! – Mauro diz
impaciente.
- Você acredita que a figurinha está no
meu bolso?
- Não!
- Mas, eu tô dizendo que ela tá no meu
bolso! Você acredita no que eu tô dizendo? – Luccas insiste.
- Não!
- Você não pode ser assim cara! – fala
Luccas.
- Eu posso e eu vou! Agora sai do meu
quarto.
Luccas levanta e tira a figura do
bolso. Ele deixa a figura em cima da cama e pula a janela, indo embora.
Mauro se aproxima e olha a figurinha.
Ele corre até a janela e avista Luccas que está se afastando.
- Luquinhas! – Mauro grita.
Lucas se vira, olhando para Mauro.
- Obrigado! – Mauro diz.
Luccas sorri e vai embora.
Mauro segura a figura e fica observando
a imagem de Darth Vader aparecer, pra depois desaparecer e surgir o Anakim.
CONTINUA...
Obs:. A série será exibida ás TERÇAS e QUINTAS às 20h.



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